AI Brasil
Saúde

Paciente conversa com chatbot entre sessões: o que você não pode terceirizar

O Conselho Federal de Psicologia listou o que a IA não substitui no cuidado em saúde mental. Uso essa lista para defender uma conversa que todo psicólogo deveria ter com quem já usa chatbot fora do consultório.

Helena RibeiroColunista

· 5 min de leitura

Este artigo foi escrito por Helena Ribeiro. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

Seu paciente já conversa com uma IA entre as sessões

Você provavelmente já ouviu isso num atendimento: "outro dia eu estava mal e abri o ChatGPT para desabafar". Não é exceção, é rotina em muitos consultórios hoje. O paciente não está te traindo nem substituindo a terapia: está usando o que tem à mão às três da manhã, quando você não atende.

O problema não é o chatbot existir. É o psicólogo fingir que isso não acontece, ou tratar o assunto como tabu em vez de pauta de sessão. Acho que dá para fazer diferente, e a nota do Conselho Federal de Psicologia (CFP) sobre inteligência artificial na saúde mental, divulgada em 5 de setembro de 2025, me dá o roteiro para essa conversa.

O que o CFP disse que não se delega a um algoritmo

A nota surgiu como reação ao programa "e-Saúde Mental no SUS", anunciado pelo governo federal, que previa uma plataforma digital para diagnóstico e suporte ao tratamento na atenção primária. O CFP não se opôs à tecnologia em si, mas listou funções que, na visão da autarquia, nenhum software substitui.

A impossibilidade de delegar a algoritmos funções como aliança terapêutica, manejo de crises e avaliação de riscos.

Conselho Federal de Psicologia, nota de posicionamento, 5 de setembro de 2025

A nota soma a isso dois pontos que interessam direto a quem atende em consultório particular ou em clínica, não só no SUS:

  • Dimensão social e cultural do sofrimento: a IA não lê o contexto histórico e cultural que molda o que o paciente sente, segundo o CFP.
  • Sigilo e ética profissional: proteger dados e manter o sigilo é parte do exercício da Psicologia, não um detalhe técnico que se resolve com criptografia.

O CFP lembra ainda que, no Brasil, softwares de saúde desse tipo precisam de aprovação prévia da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, conforme a RDC 657/2022, e cita países como Itália, Austrália e Reino Unido onde o uso de IA em saúde já foi restringido ou suspenso em algum momento.

Por que essa lista vale fora do SUS também

A nota fala de uma política pública, mas a lista do CFP funciona como checklist para qualquer consultório, público ou privado. O motivo é simples: o paciente que usa chatbot entre as sessões não está esperando uma política de saúde aprovar isso. Ele já abriu o aplicativo ontem à noite.

Aliança terapêutica se constrói em sessão, com alguém que lembra o histórico, nota a mudança no tom de voz e segura o silêncio sem preencher o vazio com uma resposta pronta. Manejo de crise exige avaliar risco real, de ideação a plano, e decidir entre internar, acionar rede de apoio ou agendar com urgência. Um chatbot não assume nenhuma dessas três coisas, porque não tem responsabilidade profissional, não responde a conselho de classe e não carrega consequência pelo que recomenda.

O contra-argumento que eu levo a sério

Seria fácil ficar só nesse ponto e fechar o texto dizendo que chatbot em saúde mental é risco. Mas existe um argumento forte do outro lado: o SUS tem fila, a terapia particular custa caro, e às três da manhã o CVV (188) nem sempre é a primeira coisa que vem à cabeça de quem está em crise. Para muita gente, o chatbot é a única porta aberta naquele momento.

Ignorar isso é tão arriscado quanto demonizar. Se o psicólogo trata o uso de chatbot como proibido, o paciente simplesmente para de contar, e você perde justamente a informação que precisa para avaliar risco. A conversa que proponho não é sobre proibir, é sobre desenhar junto o que fazer quando o chatbot não for suficiente.

Uma conversa explícita, não uma proibição

Na prática, isso significa trazer o assunto para dentro da sessão, de forma direta, sem julgamento. Um roteiro possível:

  1. Perguntar abertamente se o paciente usa IA entre as sessões e para quê.
  2. Validar que buscar companhia num momento difícil é legítimo, sem reforçar culpa.
  3. Nomear junto o que o chatbot não faz: avaliar risco de forma responsável, lembrar o histórico clínico completo, acionar ajuda real em emergência.
  4. Combinar um plano de crise por escrito: CVV (188), pronto-socorro mais próximo, um contato de confiança e, se fizer sentido, seu próprio canal de emergência.
  5. Revisar esse plano periodicamente, porque ele perde validade se ficar engavetado.

Esse plano de crise é o ponto onde a lista do CFP vira prática de consultório. Ele não compete com o chatbot, ele cobre exatamente a lacuna que a nota descreve: avaliação de risco e manejo de crise.

O que muda no sigilo quando o paciente abre o chatbot

Aqui entra um ponto que o CFP trata como central e que muitas vezes passa batido na conversa com o paciente: o que ele digita num chatbot não está sob sigilo profissional. Conversa com você, em sessão, é protegida pelo Código de Ética Profissional do Psicólogo. Conversa com um aplicativo de IA segue os termos de uso da empresa, pode ser armazenada em servidor fora do Brasil e, dependendo do produto, pode treinar o próprio modelo.

Isso não significa dizer ao paciente para não usar. Significa deixar claro, com todas as letras, onde o sigilo que ele conhece da terapia acaba e começa um contrato comercial que ele provavelmente nunca leu. Essa informação é dele para decidir o que compartilhar, mas a decisão só é informada se você a trouxer à mesa.

O que fica em aberto é a regulação. O CFP cobra marco regulatório específico para IA em saúde mental, e até esta data não existe lei brasileira dedicada a isso, só a RDC 657/2022 da Anvisa para softwares como dispositivo médico e a LGPD como regra geral de dados pessoais. Enquanto essa regulação não chega, o protocolo que cada psicólogo combina com cada paciente é, na prática, a única rede de proteção que existe.

Fonte: CFP: alerta sobre a proposta de uso de IA em saúde mental no SUS

Compartilhar
Quem escreveuHelena RibeiroColunista

Escreve para quem cuida de gente: médico, dentista, enfermeiro, fisioterapeuta, psicólogo, nutricionista, veterinário. Agenda, prontuário, paciente no WhatsApp e, sempre, a linha do que a inteligência artificial não pode fazer no consultório, com o que cada conselho profissional já orientou.

Leia também

Mais de Helena Ribeiro

Newsletter AI Brasil

A IA da semana, para a sua profissão

Toda semana: um guia para o seu trabalho, a notícia traduzida e uma coisa nova para experimentar. Gratuita, sem spam.

Você é… (opcional)