AI Brasil
Saúde

Biorrepositório brasileiro mira prevenção personalizada do câncer no SUS

Hospital de Amor, em Barretos, reúne dados genéticos e de estilo de vida de mais de 4 mil brasileiros para calcular risco de câncer de mama, colorretal e de colo do útero. A ferramenta ainda não está pronta, mas já muda o que o médico pode esperar da genética nos próximos anos.

Helena RibeiroColunista

· 6 min de leitura

Este artigo foi escrito por Helena Ribeiro. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

Um banco de dados que já existia ganhou um braço de precisão

O Hospital de Amor, em Barretos (SP), mantém desde 2006 um biobanco com mais de 420 mil amostras biológicas de mais de 55 mil doadores. Agora esse acervo ganhou uma frente específica: um biorrepositório voltado a estudos genômicos e medicina de precisão em câncer, descrito em artigo publicado na revista iScience e financiado pela FAPESP.

Até agora, o projeto reuniu 4.062 participantes e quase 40 mil amostras de sangue. A meta é chegar a 8 mil pessoas (metade com câncer, metade sem a doença) nos próximos dois anos. Os primeiros tumores estudados são os de mama, colorretal e colo do útero, justamente porque já têm rastreamento estabelecido: mamografia, exame preventivo do colo do útero e pesquisa de sangue oculto nas fezes ou colonoscopia.

Para o médico que atende esses pacientes no dia a dia, a notícia não é de um produto pronto para pedir amanhã. É a construção da base que, se validada, pode um dia justificar mudar a frequência ou a idade de início de um exame de rastreio para um paciente específico.

O que é o escore poligênico de risco (e por que não é teste de BRCA)

O objetivo final do projeto é desenvolver o que se chama de escore poligênico de risco. Ele é diferente dos testes genéticos que o médico já conhece, como a pesquisa de mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, que isoladamente aumentam muito o risco de câncer de mama e de ovário.

Rui Manuel Reis, diretor científico do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital de Amor e coordenador do estudo, explica que a maioria dos cânceres não tem uma mutação única por trás. Existem milhares de pequenas variações espalhadas pelo DNA, cada uma com efeito mínimo isolado, algumas aumentando e outras reduzindo o risco. O escore soma o efeito combinado dessas variantes e gera uma estimativa de predisposição.

Para cada indivíduo, avaliamos a existência de milhares de variações genéticas que, somadas, podem apontar um risco maior ou menor. É isso que chamamos de escore poligênico de risco.

Rui Manuel Reis, diretor científico do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital de Amor

O resultado não diz se a pessoa vai ou não desenvolver câncer. Ele classifica o paciente numa faixa de risco mais baixa ou mais alta, informação que se soma a outros fatores, como obesidade, tabagismo e histórico familiar, para orientar conduta.

A régua europeia não serve para o paciente brasileiro

Escores poligênicos não são novidade: já existem, construídos a partir de grandes estudos genômicos internacionais. O problema, segundo Reis, é que mais de 90% das pessoas incluídas nesses estudos têm ascendência europeia. Aplicar esse cálculo direto num paciente brasileiro, com a miscigenação que o país tem, é usar uma régua feita para outra genética e outro estilo de vida.

Não podemos construir uma medicina de precisão com uma régua que foi feita para uma população europeia, com uma genética europeia e um estilo de vida europeu.

Rui Manuel Reis

Os dados coletados até agora já confirmam a miscigenação esperada, com contribuição de ancestralidade europeia, africana, indígena e asiática, variando entre indivíduos e entre regiões do país. É isso que o grupo quer entender antes de validar qualquer escore para uso clínico: como a ancestralidade interage com o risco genético e com fatores ambientais e de estilo de vida, levantados por um questionário epidemiológico aplicado a cada participante.

O que muda (e o que ainda não muda) na consulta

O estudo publicado não traz um escore pronto. Ele descreve a infraestrutura criada para que esse escore possa, no futuro, ser testado e validado. Os resultados mais avançados são os do câncer colorretal, que ainda vão sair em outro artigo, segundo o próprio Reis.

Isso tem uma implicação direta para quem já lida hoje com oferta de testes genéticos de risco no mercado brasileiro: segundo o pesquisador, muitos desses produtos foram desenvolvidos e validados em populações estrangeiras, sem comprovação de que funcionam da mesma forma aqui.

Quando se trata de uma doença como o câncer, é preciso produzir evidências próprias antes de levar essas ferramentas para a prática clínica.

Rui Manuel Reis

Na prática, isso significa que o médico de família, o ginecologista ou o oncologista que hoje é procurado por um paciente com um teste comercial de risco genético em mãos tem motivo concreto para questionar a base populacional usada na validação daquele produto, antes de mudar conduta de rastreamento com base nele.

O cenário que o estudo projeta para quando o escore existir

Se os escores forem validados, o uso prático seria assim: um paciente classificado numa faixa de risco mais alta para câncer colorretal receberia atenção reforçada aos fatores modificáveis (dieta, atividade física, tabagismo) e, se estudos futuros comprovarem benefício, poderia ser encaminhado para colonoscopia mais cedo do que o protocolo padrão recomenda hoje. O mesmo raciocínio valeria para câncer de mama e de colo do útero, com antecipação ou intensificação do rastreio.

A ideia declarada por Reis é que a ferramenta final use não milhões de variantes, como a pesquisa atual analisa, mas apenas dezenas ou centenas delas, a partir de uma amostra de sangue simples, o que tornaria viável levar o teste para a rede pública. Mas essa etapa depende de validação em número maior de pessoas e em outros centros antes de qualquer recomendação do SUS.

Onde entra o cuidado com o dado do paciente

Um biorrepositório dessa escala reúne dado genético e de saúde de milhares de pessoas, categoria que a LGPD (Lei 13.709/2018) trata como dado sensível, com regras mais rígidas de consentimento e finalidade. O material da fonte não detalha o desenho de consentimento do estudo, mas a lógica de qualquer biobanco acadêmico sério passa por termo de consentimento livre e esclarecido específico para pesquisa, aprovação de comitê de ética e anonimização antes de qualquer publicação.

Para o médico assistencial, o ponto prático é outro: se e quando um escore poligênico brasileiro for oferecido como exame clínico, o resultado desse teste no prontuário do paciente terá o mesmo peso de qualquer outro dado sensível, e não deve circular fora do prontuário ou ser usado para qualquer finalidade que o paciente não tenha autorizado no consentimento daquele exame específico.

O que falta para isso chegar ao consultório

O projeto quer ampliar o biorrepositório para outros tumores, como pulmão, pâncreas e melanoma, e incluir pacientes de regiões ainda pouco representadas em estudos genômicos, usando a rede do Hospital de Amor nessas áreas. Nenhum desses escores está disponível para pedido clínico hoje. O que existe, publicado agora na iScience, é a base de dados e a infraestrutura que vão sustentar essa pesquisa nos próximos anos, com os primeiros resultados específicos sobre câncer colorretal ainda por vir.

Fonte: Medicina S/A

Compartilhar
Quem escreveuHelena RibeiroColunista

Escreve para quem cuida de gente: médico, dentista, enfermeiro, fisioterapeuta, psicólogo, nutricionista, veterinário. Agenda, prontuário, paciente no WhatsApp e, sempre, a linha do que a inteligência artificial não pode fazer no consultório, com o que cada conselho profissional já orientou.

Leia também

Newsletter AI Brasil

A IA da semana, para a sua profissão

Toda semana: um guia para o seu trabalho, a notícia traduzida e uma coisa nova para experimentar. Gratuita, sem spam.

Você é… (opcional)