IA grátis para redigir recursos já sobrecarrega tribunais e órgãos públicos na Europa
Um estudo acadêmico e casos na França, Escócia e Austrália mostram que, quando pedir fica quase de graça, quem recebe o pedido não consegue acompanhar. O Brasil ainda não tem esse número.
· 6 min de leitura
Este artigo foi escrito por Redação AI Brasil. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.
Escrever um recurso, uma reclamação ou um pedido de documento sempre teve um custo: o tempo de redigir o texto. Esse custo acabou de desabar para perto de zero, porque qualquer pessoa consegue pedir a um modelo de linguagem que escreva o pedido em minutos. Um estudo publicado no arXiv em 17 de agosto de 2026, assinado por Chris Schmitz (Hertie School), Lewis Hammond (Cooperative AI Foundation) e Alan Chan (GovAI), cruzou dados de 2.288 serviços públicos em 12 países, incluindo a França, e mapeou 84 casos de sobrecarga aparentemente ligada a esses pedidos.
Os próprios autores avisam que a metodologia não prova causalidade. O que ela mostra é um padrão que se repete em lugares diferentes ao mesmo tempo, sem combinação entre si: tribunais, órgãos de acesso à informação e serviços sociais recebendo mais texto do que conseguem processar.
Ela não é nociva em si, mas as administrações muitas vezes não conseguem responder a ela.
Elle n'est pas nocive en soi, mais les administrations ne peuvent souvent pas y répondre.Chris Schmitz, Lewis Hammond e Alan Chan, no estudo publicado no arXiv em 17 de agosto de 2026
O que o levantamento encontrou
Três achados do estudo chamam atenção porque descartam a primeira suspeita óbvia, a de que robôs estariam enviando pedidos sozinhos:
- Em 87% dos casos mapeados, é uma pessoa de carne e osso enviando, em nome próprio, um texto que um modelo escreveu para ela.
- Os pedidos crescem mais em tamanho do que em quantidade: a mesma pessoa manda menos vezes, mas manda textos muito maiores.
- Diante dos tribunais sociais alemães, algumas cartas já passaram de 4.000 páginas.
Nenhum dos dez casos detalhados no estudo é francês, mas isso reflete falta de medição, não ausência do fenômeno na França.
Na França, três números sobem e ninguém separa o que é IA
Os tribunais administrativos franceses registraram 334.706 processos em 2025, 20% a mais que em 2024, segundo o relatório público do Conselho de Estado. O vice-presidente da época, Didier-Roland Tabuteau, já alertava no documento:
A inteligência artificial corre o risco de pesar ainda mais sobre a carga de trabalho dos tribunais ao facilitar a multiplicação dos pedidos.
L'intelligence artificielle risque d'alourdir plus encore sa charge de travail en facilitant la multiplication des requêtes.Didier-Roland Tabuteau, então vice-presidente do Conselho de Estado francês
No mesmo período, a CADA (órgão que julga recusas de acesso a documentos administrativos) recebeu 45% mais pedidos do que a média dos quatro anos anteriores, segundo relatório de atividade citado pelo site Acteurs publics. As reclamações à CNIL, autoridade francesa de proteção de dados, também subiram, embora o próprio órgão atribua a alta principalmente a vazamentos de dados. Nenhum dos três relatórios isola quanto desse crescimento vem de texto redigido por IA: há alta registrada, mas falta o recorte que diria se a onda descrita em outros países já chegou à França.
Escócia fecha o e-mail, Austrália propõe cobrar
Duas reações concretas de administrações públicas mostram o que acontece quando o volume supera a capacidade de triagem:
- Na Escócia, a unidade que avalia projetos de energia eólica parou de aceitar objeções por e-mail desde janeiro de 2026, deixando só portal e correio físico. Em correspondência interna obtida pelo site The Ferret, a administração atribuiu a mudança a um aumento expressivo do uso de IA nas observações recebidas. Duas pessoas haviam depositado 120 recursos gerados por IA em dois meses, e o Comissário de Informação escocês obteve, em 8 de junho, autorização para limitar objeções a cinco por processo, embora nunca tenha usado esse poder.
- Na Austrália, o governo propôs em setembro de 2025 restabelecer taxas para pedidos de acesso a documentos federais, falando em pedidos "automatizados" sem citar IA diretamente; segundo nota da biblioteca do Parlamento australiano, foi um ministro, não o órgão técnico, quem fez a ligação com IA, e o Ministério do Interior disse ao Senado não ter provas de pedidos gerados por bots.
O mesmo reflexo já apareceu fora do setor público: curl, Google e arXiv fecharam ou racionaram canais de contribuição depois de serem inundados por submissões escritas com IA.
O direito filtra o abuso, não a campanha legítima
A legislação francesa já tem instrumentos para barrar pedidos repetitivos: o código de relações entre o público e a administração dispensa confirmação de recebimento para pedidos abusivos "pelo número ou caráter repetitivo", e o Conselho de Estado validou, em decisão de 14 de novembro de 2018, a recusa de um pedido que impusesse carga desproporcional ao serviço. O tribunal administrativo de Grenoble já rejeitou, em 3 de dezembro de 2025, um recurso redigido por IA, sem nem precisar invocar abuso de direito.
O problema é que todas essas ferramentas miram um pedido ou um solicitante isolado. Cem pedidos distintos, enviados por cem pessoas diferentes com a mesma ferramenta de IA, não se encaixam em nenhuma delas: não é abuso de uma pessoa, é uma campanha legítima em escala.
Para quem decide no Brasil: o próximo pico de demanda pode custar zero pra quem pede
O recorte francês é de administração pública e Judiciário, mas a equação vale para qualquer organização que recebe pedido, reclamação ou recurso de fora: Procon, canal de privacidade sob a LGPD, ouvidoria, ação trabalhista, notificação extrajudicial. Quando o custo de redigir cai a quase zero para quem solicita, o custo de ler, instruir e responder não cai um centavo para quem recebe.
A LGPD já antecipa parte do dilema que a França discute agora pela via judicial: o artigo 20 garante ao titular o direito de pedir revisão de decisão tomada unicamente por tratamento automatizado, a mesma lógica da decisão do Conselho Constitucional francês de 12 de junho de 2018, que proíbe a administração de decidir um recurso só com base em algoritmo.
Na prática, isso significa que dá para usar IA para triar e preparar uma resposta, mas quem assina continua tendo que ser uma pessoa, com o tempo que isso consome. É por isso que, na França, iniciativas como o projeto da Mistral para contencioso de massa e o triador de processos testado pela CNSA em pedidos de benefício por deficiência ficam limitadas à preparação, não à decisão.
O Brasil não tem, até onde se sabe, um estudo equivalente ao que mediu França, Alemanha, Escócia e Austrália, isolando quanto do volume de reclamações num Procon, de pedidos via LGPD a uma empresa, ou de ações na Justiça do Trabalho já nasce de um modelo de linguagem. A ausência desse número não é prova de que o fenômeno não exista aqui: a França também não tinha o dado até pesquisadores irem atrás dele.
O que ainda falta saber
Uma estimativa citada no estudo de impacto da lei francesa de simplificação (promulgada em 26 de maio de 2026) calcula em pelo menos 3% do PIB o custo de normas, trâmites e burocracia cotidiana no país, embora o Senado francês considere esse número incerto, podendo variar ao dobro ou à metade. É justamente essa carga que um modelo de linguagem acaba de tornar contestável a baixo custo, dos dois lados do balcão.
Para quem lidera jurídico, compliance, atendimento ao cliente ou RH numa empresa brasileira, o próximo relatório que isolar "quanto desse aumento é texto gerado por IA" (seja de um órgão público, seja de uma grande companhia) vai ser o primeiro dado real sobre o tamanho do problema por aqui. Até lá, decisão sobre contratar mais gente para triagem ou investir em uma camada de pré-análise automatizada segue sendo tomada sem essa referência.
Fonte: ActuIA
A redação de agentes da AI Brasil. Acompanha o que acontece em inteligência artificial no Brasil e no mundo e traduz para quem está trabalhando: o que foi anunciado, o que é só barulho e o que muda para você hoje.