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Robótica na escola também ensina a incluir, não só a programar

Dados do PeNSE 2024 mostram que um em cada quatro estudantes brasileiros sofreu bullying recorrente. Defendo que a bancada de robótica, bem conduzida, pode ser um dos poucos espaços da escola onde essa lógica para.

Paula SiqueiraColunista

· 5 min de leitura

Este artigo foi escrito por Paula Siqueira. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.

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Dados do PeNSE 2024 mostram que um em cada quatro estudantes brasileiros sofreu bullying recorrente. Defendo que a bancada de robótica, bem conduzida, pode ser um dos poucos espaços da escola onde essa lógica para.

Dados do PeNSE 2024 mostram que um em cada quatro estudantes brasileiros sofreu bullying recorrente. Defendo que a bancada de robótica, bem conduzida, pode ser um dos poucos espaços da escola onde essa lógica para.

Vou direto ao ponto: a aula de robótica que só mede quem terminou o protótipo primeiro está desperdiçando a parte mais valiosa do próprio projeto. Trabalho com tecnologia na educação há tempo suficiente para saber que toda ferramenta nova carrega o risco de reproduzir as mesmas exclusões de sempre, só que com fios e sensores no lugar de régua e caderno. A diferença é que a robótica, bem conduzida, tem um antídoto embutido: ela obriga o grupo a negociar, errar junto e dividir tarefas. Isso não acontece sozinho, e é aqui que quero me posicionar.

Os números mostram que não existe bolha protegida

A PeNSE (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar) 2024, divulgada pelo IBGE em 2026, traz um retrato que eu não consigo ler como estatística distante. São adolescentes de 13 a 17 anos, a mesma faixa etária que ocupa as bancadas de robótica nas escolas brasileiras.

Indicador (PeNSE 2024)GeralRede pública
Sofreu bullying recorrente27,2%-
Meninas30,1%-
Meninos24,3%-
Praticou bullying13,7%-
Sofreu bullying digital12,7%13,4%
Estudantes que frequentam escola com apoio psicológico47,7%45,8%

Em 2019, o percentual geral de quem sofreu bullying era de 23%. Ou seja, o problema cresceu, não diminuiu. E ele não fica na porta da sala de informática: ele entra na bancada de robótica junto com os estudantes, porque convivência não se tranca do lado de fora.

A bancada pode reproduzir a exclusão ou desmontá-la

Minha posição é que o projeto de robótica não é neutro em relação a isso. Ele amplifica o que já existe no grupo. Se o professor deixa os mesmos alunos sempre programarem e os mesmos sempre segurarem o fio, está usando a tecnologia para confirmar um rótulo que a escola já colou em alguém: "esse não é bom em tecnologia".

A professora Débora Garofalo, no texto que me fez pensar nisso, descreve um conjunto de perguntas que considero o verdadeiro checklist do professor de robótica: quem fala sempre, quem decide, quem executa, quem é ouvido e quem precisa repetir a própria ideia várias vezes até ser levado a sério. Nenhuma dessas perguntas aparece em plano de aula de circuito elétrico, mas são elas que decidem se o projeto vai incluir ou excluir.

O professor não precisa esperar que a situação se agrave para intervir.

(autora) Débora Garofalo, professora, mestra em Educação e gestora em inovação

Concordo com essa frase, mas quero ir um passo além: intervir não é vigiar a conversa do grupo. É desenhar a atividade para que ela não dependa da boa vontade de ninguém. Rodízio de funções entre programação, montagem, pesquisa, documentação, comunicação e testes faz isso de forma estrutural. O estudante que não se identifica com o código ainda tem uma porta de entrada legítima, e essa porta não é prêmio de consolação: é onde às vezes nasce a pergunta que destrava o projeto inteiro.

O contra-argumento que eu levo a sério

Tem gente que vai ler isso e discordar, com razão em parte. O argumento é: se o professor gasta a aula cuidando de quem fala e de quem é ouvido, sobra menos tempo para ensinar lógica de programação, eletrônica e o rigor técnico que o mercado vai cobrar depois. Robótica não é terapia de grupo, é disciplina técnica, e diluir isso em acolhimento pode entregar um estudante que sabe conviver bem mas não sabe montar um circuito.

Eu discordo da conclusão, não do diagnóstico. É verdade que rigor técnico importa e que ninguém forma engenheiro só com dinâmica de grupo. Mas a premissa de que pertencimento e competência técnica competem pelo mesmo tempo de aula não se sustenta na prática que o próprio texto do Porvir descreve: nem sempre o estudante que monta mais rápido é quem melhor entende o problema. Um grupo em que só um aluno manuseia o sensor não produz mais rigor técnico, produz um especialista e três espectadores. Rodízio de função não troca conteúdo técnico por acolhimento, ele distribui o conteúdo técnico entre mais gente.

O professor também precisa de rede, não só de script

Tem uma parte dessa discussão que raramente aparece e que eu insisto em trazer: 45,8% dos estudantes da rede pública frequentam escolas com algum tipo de apoio psicológico, segundo a própria PeNSE 2024. Isso significa que mais da metade não frequenta. Pedir que o professor sozinho sustente acolhimento, mediação de conflito e rigor técnico ao mesmo tempo, sem rede institucional, é um pedido que a escola faz sem dar as condições de cumprir.

Não é papel do professor de robótica fazer diagnóstico ou atendimento de saúde mental. Situação de sofrimento intenso exige encaminhamento profissional, não improviso em sala. Mas combinar com a equipe gestora um protocolo simples para quando um padrão de exclusão aparece na bancada já tira um peso enorme de cima de quem está sozinho na frente da turma.

O que muda na prática para quem dá aula

Na minha leitura, isso se traduz em três decisões concretas que cabem em qualquer planejamento de robótica, sem depender de verba extra:

  • Planejar a composição dos grupos em vez de deixar o grupo se formar sozinho, alternando quem trabalha com quem a cada projeto.
  • Fazer rodízio explícito de função (programação, montagem, pesquisa, documentação, apresentação) e registrar quem passou por cada uma.
  • Perguntar "o que aprendemos com o que não deu certo" em vez de só "funcionou", transformando o erro em parte do processo em vez de motivo de constrangimento.

Uma observação da minha área: se a turma usa algum assistente de IA para documentar o projeto ou escrever o relatório final, vale o mesmo cuidado de sempre com dado de estudante menor de idade, que não vai para nenhuma ferramenta sem aval da escola. E vale reparar se é sempre o mesmo aluno que "dita" para a IA enquanto os outros assistem: a tecnologia nova pode reforçar a mesma hierarquia da bancada antiga se ninguém prestar atenção.

No fim, minha posição é que a robótica na escola só cumpre sua promessa quando ensina duas coisas ao mesmo tempo: como um circuito fecha e como um grupo se sustenta. Uma não compensa a ausência da outra.

Fonte: Porvir

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Quem escreveuPaula SiqueiraColunista

Escreve para quem ensina e quem aprende: professor, coordenador, estudante, quem dá aula particular, e quem está mudando de carreira por causa da inteligência artificial. Plano de aula, correção, o que fazer com a cola por IA e o caminho de formação, sem promessa de emprego fácil.

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