AI Brasil
Saúde

Projeto de IA tenta identificar mutação do câncer de pulmão sem biópsia

Einstein e Siemens Healthineers abrem um centro de pesquisa para testar se a leitura de imagem por inteligência artificial consegue apontar mutações do câncer de pulmão sem biópsia. O primeiro estudo, com 16 meses de duração, ainda não é uma ferramenta pronta para o consultório.

Helena RibeiroColunista

· 5 min de leitura

Este artigo foi escrito por Helena Ribeiro. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.

Um centro de pesquisa, não uma ferramenta pronta para o consultório

O Hospital Israelita Albert Einstein e a Siemens Healthineers colocaram em operação um Centro Colaborativo de Inovação (CCI), espaço físico na Vila Einstein, no Morumbi, com inauguração prevista para o segundo semestre. A proposta prevê cinco anos de codesenvolvimento de tecnologias em medicina de precisão, juntando médicos, pesquisadores, cientistas de dados e engenheiros das duas instituições.

O primeiro projeto do centro é um estudo de 16 meses sobre câncer de pulmão. Antes de qualquer coisa, vale a reconhecer o óbvio para quem atende paciente: isso não é um produto disponível hoje. É uma hipótese de pesquisa em fase de validação, segundo a própria Saúde Business, que publicou o anúncio.

O que a inteligência artificial vai realmente procurar na imagem

O estudo usa radiômica, técnica que extrai de exames de imagem (tomografia, por exemplo) um volume de dados numéricos (textura, forma, intensidade de pixel) que o olho humano não distingue na leitura convencional. A hipótese é cruzar esses padrões com informações moleculares do tumor, o que a literatura chama de radiogenômica.

Na prática, o alvo não é achar o tumor antes que ele exista. É tentar prever, a partir da imagem que já existe, se aquele tumor carrega mutações como as que hoje só se confirmam com biópsia de tecido ou biópsia líquida (exame de sangue que busca fragmentos de DNA tumoral). Esse tipo de mutação (em genes como EGFR, ALK ou KRAS) é o que define se o paciente responde a uma terapia-alvo específica.

Se a hipótese se confirmar, a imagem passaria a funcionar como um biomarcador não invasivo complementar, não um substituto definitivo do exame molecular. O material divulgado pelas duas instituições é claro ao dizer que não existe hoje ferramenta assim amplamente disponível para uso clínico, nem registro de iniciativa publicada no Brasil nesses moldes.

Por que o câncer de pulmão entrou primeiro na fila

A escolha não é aleatória. Segundo o GLOBOCAN 2022, da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde, o câncer de pulmão foi o tipo mais diagnosticado no mundo naquele ano, com cerca de 2,5 milhões de casos novos, e também a principal causa de morte por câncer, com aproximadamente 1,8 milhão de óbitos.

Parte do problema é o diagnóstico tardio: muitos casos só aparecem em estágio avançado. A outra parte é de acesso: a definição do tratamento depende cada vez mais de exames moleculares especializados, que nem todo serviço de saúde consegue oferecer com rapidez, principalmente fora dos grandes centros.

O que muda, de fato, para quem atende hoje

Para o pneumologista, o oncologista ou o clínico que acompanha um paciente com nódulo pulmonar suspeito, a resposta curta é: nada muda na rotina de hoje. A caracterização molecular do tumor continua dependendo de biópsia de tecido ou biópsia líquida, e a conduta terapêutica segue os protocolos vigentes.

O que muda é o horizonte de expectativa. Se o estudo validar a hipótese, o cenário futuro é de uma análise de imagem que ajude a priorizar quem precisa de exame molecular com mais urgência, ou que sirva de apoio em locais onde o exame especializado demora ou não chega. Isso é diferente de prometer que a IA vai substituir a biópsia, promessa que nem o material da Saúde Business faz.

Rodrigo Demarch, diretor executivo de Inovação do Einstein, descreve a lógica do centro assim:

Com o Centro Colaborativo de Inovação, criamos um ambiente permanente para transformar desafios identificados na prática assistencial em tecnologias capazes de gerar impacto para pacientes e profissionais de saúde.

Rodrigo Demarch, diretor executivo de Inovação do Einstein

Os limites que o próprio anúncio reconhece

Vale destacar o que as duas instituições não afirmam. Não há dado de sensibilidade ou especificidade da ferramenta, porque o estudo ainda está rodando. Não há aprovação regulatória, porque não existe produto a aprovar. Não há, segundo o texto divulgado, nenhuma iniciativa publicada no Brasil que combine IA, radiômica e inferência molecular da mesma forma, o que também significa que não há comparação direta disponível ainda.

Manuel Coelho, head de Pesquisa e Inovação da Siemens Healthineers para a América Latina, situa a parceria num objetivo mais amplo de acesso, não de substituição de exame:

A combinação entre a complexidade do contexto brasileiro e a excelência científica e clínica do Einstein cria oportunidades únicas para gerar conhecimento, desenvolver novos modelos de cuidado e ampliar o acesso à saúde de qualidade.

Manuel Coelho, head de Pesquisa e Inovação da Siemens Healthineers para a América Latina

Onde entram os dados do paciente, e onde não entram

Imagem médica é dado pessoal sensível pela Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018, art. 5º, inciso II), por revelar informação de saúde. Pesquisa clínica com seres humanos no Brasil, incluindo uso de imagens de exame, precisa passar por comitê de ética em pesquisa e, dependendo do desenho, pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), conforme a Resolução CNS nº 466/2012, do Conselho Nacional de Saúde, com consentimento informado e anonimização dos dados.

Isso significa que a imagem de um paciente desse estudo não sai do circuito institucional controlado por Einstein e Siemens Healthineers para nenhum outro lugar. É um ponto distinto, e importante, de qualquer prática de enviar foto de exame por WhatsApp para uma IA de uso geral, conduta que esse tipo de protocolo de pesquisa não endossa nem substitui.

O que vem depois do pulmão

O CCI já avalia outras frentes, incluindo pesquisa sobre câncer de fígado e aplicações de computação quântica no desenvolvimento de modelos de inteligência artificial para saúde. A ideia declarada das duas instituições é manter uma estrutura permanente, não um projeto isolado, para aproximar pesquisa de aplicação clínica real.

O que fazer com essa informação, na prática

Para quem atende paciente com suspeita ou diagnóstico de câncer de pulmão, a recomendação objetiva é continuar seguindo o protocolo de investigação molecular já estabelecido, porque é o único validado até aqui. Vale acompanhar as publicações do estudo, que deve gerar resultados em congressos de oncologia e pneumologia ao longo dos próximos meses, antes de comentar a tecnologia com o paciente como algo disponível.

Fonte: Saúde Business

Compartilhar
Quem escreveuHelena RibeiroColunista

Escreve para quem cuida de gente: médico, dentista, enfermeiro, fisioterapeuta, psicólogo, nutricionista, veterinário. Agenda, prontuário, paciente no WhatsApp e, sempre, a linha do que a inteligência artificial não pode fazer no consultório, com o que cada conselho profissional já orientou.

Leia também

Newsletter AI Brasil

A IA da semana, para a sua profissão

Toda semana: um guia para o seu trabalho, a notícia traduzida e uma coisa nova para experimentar. Gratuita, sem spam.

Você é… (opcional)