Pesquisa mostra que 66,1% dos médicos brasileiros já usam IA no trabalho
Levantamento da empresa de tecnologia MV, divulgado em outubro de 2026, mostra que dois terços dos médicos brasileiros usam inteligência artificial com frequência ou eventualmente, principalmente para apoiar decisões clínicas.
· 6 min de leitura
Este artigo foi escrito por Helena Ribeiro. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.
Uma pesquisa encomendada pela MV, empresa de tecnologia para saúde sediada no Porto Digital, descobriu que 66,1% dos médicos brasileiros já usam inteligência artificial na rotina profissional, seja com frequência ou de vez em quando. A reportagem do Movimento Econômico que trouxe esses números é a porta de entrada deste texto, mas o que importa para quem está no consultório é entender exatamente o que esse uso significa na prática, e onde ele para.
O estudo "O Uso de Inteligência Artificial por Médicos no Brasil" foi aplicado entre o segundo semestre de 2025 e o início de 2026, com 196 respondentes do ecossistema de saúde, dos quais 112 eram médicos em atividade ou em formação, das cinco regiões do país. Não é uma amostra nacional representativa no sentido estatístico estrito, mas é grande o suficiente para indicar uma tendência: a IA deixou de ser curiosidade de congresso e virou ferramenta de trabalho para a maioria.
O que está sendo delegado, e o que não é diagnóstico automático
Entre quem já usa IA, 56,6% aplicam a tecnologia em apoio à decisão clínica. Na prática isso cobre três tarefas específicas: interpretação de exames, sugestão de códigos da Classificação Internacional de Doenças (CID) e associação entre os sintomas relatados pelo paciente e possíveis hipóteses diagnósticas.
Vale separar o que isso é do que não é. Uma ferramenta que sugere um código de CID ou aponta um padrão num exame de imagem está fazendo triagem e organização, não fechando diagnóstico. O Código de Ética Médica (Resolução CFM nº 2.217/2018, do Conselho Federal de Medicina) estabelece que a responsabilidade pelo ato médico, pelo diagnóstico e pela conduta terapêutica é sempre do profissional que assina o prontuário. Isso vale igualmente quando a sugestão vem de um sistema de IA: o software pode indicar, o médico decide e assina.
Na prática do dia a dia, isso se traduz num cuidado simples: tratar a saída da IA como uma segunda opinião que precisa ser conferida, nunca como um laudo pronto para copiar e colar.
Usar mais gera mais confiança, mas a causa pode andar nos dois sentidos
Um dos achados mais interessantes da pesquisa é que a confiança média na tecnologia é 26% maior entre os médicos que usam IA regularmente, comparados aos que nunca tiveram contato com essas ferramentas. É tentador ler isso como "use mais e vai confiar mais", mas a via também pode ser inversa: quem já confiava um pouco mais é que topou testar primeiro.
De qualquer forma, o dado serve de termômetro para quem ainda está de fora: a resistência inicial tende a cair conforme o profissional ganha prática com a ferramenta em tarefas concretas, não em teoria.
Quem topa pagar do próprio bolso
A pesquisa quebra um mito comum: o de que só o médico recém-formado, mais familiarizado com tecnologia, estaria disposto a investir em IA. Os dados mostram o oposto. Médicos com 6 a 20 anos de formação são o grupo com maior disposição para pagar por essas ferramentas: 85,7% afirmam que pagariam, com um valor médio mensal aceito de R$ 111.
Esse recorte faz sentido clínico: é a faixa de profissionais que já tem volume de pacientes e rotina consolidada, mas ainda não chegou a um ponto da carreira em que delegaria tudo a uma equipe grande. Para esse grupo, uma ferramenta de IA que poupa tempo de triagem de exame ou de preenchimento de prontuário compete diretamente com contratar mais uma pessoa.
Custo e integração seguram o avanço, e o motivo muda conforme o setor
Apesar da adoção já majoritária, a pesquisa identifica duas barreiras concretas para que o uso avance ainda mais:
- Custo de aquisição ou assinatura: apontado por 30,4% dos médicos como a maior dificuldade.
- Integração com sistemas existentes: mencionada por 22,3%, principalmente a dificuldade de conectar a ferramenta de IA ao prontuário eletrônico e às plataformas de gestão já usadas pela clínica ou hospital.
As prioridades mudam conforme onde o médico trabalha. Na rede pública, pesa mais a relação entre o investimento necessário e o retorno que a ferramenta entrega. No setor privado, o que trava a decisão é outra coisa: capacitação da equipe para usar a ferramenta direito e a existência de evidência científica que comprove que ela realmente funciona, não só a promessa do fabricante.
O caso Diagnes mostra que digitalizar vem antes de automatizar
Um exemplo concreto citado na reportagem ajuda a entender por que integração é um gargalo tão comum. A Diagnes é uma startup que digitaliza processos de pequenas clínicas de diagnóstico por imagem, um segmento que, segundo o CEO Átila Bezerra, ainda opera com exame impresso e arquivo físico.
As pequenas clínicas não entram nesse radar. A gente visitou essas clínicas e viu que muitos dos processos ainda eram manuais, com exames impressos e sem uma digitalização de todo esse processo.
Átila Bezerra, CEO da Diagnes
A solução da empresa é um dispositivo conectado ao equipamento de ultrassom que sincroniza automaticamente imagem e vídeo com uma plataforma online, permitindo ao médico elaborar o laudo pelo computador e entregar o conteúdo ao paciente sem pendrive nem impressão. A Diagnes já atende 266 clientes, concentrados no Norte e Nordeste, hoje focada em ecocardiografia e expandindo para obstetrícia, com faturamento mensal acima de R$ 60 mil. Segundo Bezerra, funcionalidades de IA devem ser incorporadas à plataforma apenas em 2027.
O recado para quem lê isso do consultório é direto: antes de perguntar "qual IA eu compro", vale perguntar "meus exames e meu prontuário já estão em formato digital que uma IA conseguiria ler". Sem isso, qualquer ferramenta de IA vira mais um sistema isolado, exatamente a dor de integração que 22,3% dos médicos relataram.
O limite que a pesquisa não discute: sigilo e dado sensível
A pesquisa da MV não entra no tema da proteção de dados, mas ele é inevitável para quem usa IA com informação de paciente. Dado de saúde é dado sensível segundo a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018, artigo 11), o que exige uma base legal específica para tratamento, normalmente o consentimento do paciente ou a tutela da saúde exercida por profissional de saúde.
Na prática, isso separa duas categorias de uso que a pesquisa trata como uma coisa só. Uma ferramenta de apoio à decisão clínica integrada ao sistema da clínica, com contrato de tratamento de dados e hospedagem adequada, pode processar exame e sintoma do paciente dentro da LGPD. Já digitar nome, exame e histórico do paciente num chat de IA genérico, sem contrato de confidencialidade com o fornecedor, é outra história: ali o dado sai do controle da clínica e pode configurar vazamento, mesmo sem intenção.
O critério prático é simples: id do paciente, resultado de exame e hipótese diagnóstica só vão para uma ferramenta de IA que tenha contrato formal com a clínica ou o hospital garantindo onde o dado fica armazenado e quem tem acesso. Pergunta de uso genérico, sem identificar o paciente, pode ir para qualquer assistente. O nome do paciente, nunca.
Fonte: Movimento Econômico

Escreve para quem cuida de gente: médico, dentista, enfermeiro, fisioterapeuta, psicólogo, nutricionista, veterinário. Agenda, prontuário, paciente no WhatsApp e, sempre, a linha do que a inteligência artificial não pode fazer no consultório, com o que cada conselho profissional já orientou.