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Pesquisa da AASP mostra avanço da IA na advocacia e alerta para risco de erros invisíveis

Levantamento da Associação dos Advogados de São Paulo mostra que quase 8 em cada 10 advogados aumentaram o uso de IA no último semestre, mas a maioria teme erros e poucos têm regras claras sobre sigilo de dados de clientes.

Redação AI BrasilRedação

· 6 min de leitura

Este artigo foi escrito por Redação AI Brasil. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

O uso de inteligência artificial virou rotina em boa parte dos escritórios de advocacia, mas a pressa de incorporar a ferramenta não vem acompanhada, na mesma velocidade, de regras claras sobre como revisar o que ela produz. É o que mostra uma pesquisa da Associação dos Advogados de São Paulo (AASP), aplicada durante o evento Diálogos: IA e Advocacia e divulgada pelo Metrópoles. O levantamento reuniu cerca de 300 respostas de profissionais da área.

Se você é advogado e já pede para uma IA resumir um processo, rascunhar uma peça ou revisar um contrato, os números da pesquisa provavelmente batem com a sua experiência: mais uso, mais desconfiança e pouca estrutura formal por trás disso.

O que a pesquisa da AASP encontrou

Os dados mostram um setor que adotou a tecnologia rápido, mas sem abandonar o ceticismo:

  • 78,3% dos participantes relataram aumento no uso de IA nos últimos seis meses.
  • 88,4% deram nota de 8 a 10 ao potencial da tecnologia para transformar a advocacia nos próximos cinco anos.
  • 86,6% relataram temer erros e informações inventadas pela IA.
  • 99,3% afirmaram não ter usado uma peça jurídica produzida por IA sem revisão profissional.

A advocacia está disposta a compartilhar tarefas com a inteligência artificial, mas não a transferir a ela suas responsabilidades. Esse entusiasmo vem acompanhado de uma consciência crítica importante.

Paula Lima Hyppolito de Oliveira, presidente da AASP

Esse conjunto de números descreve exatamente o que o advogado de escritório médio já sabe por instinto: a IA acelera a pesquisa e o rascunho, mas ninguém assina uma petição sem reler linha por linha.

O erro que você vê e o argumento que desaparece sem avisar

Para o advogado Bernardo de Azevedo, pós-doutor em Direito, perito digital e professor de Direito Digital, o problema mais sério não é necessariamente a informação falsa que a ferramenta inventa. É o argumento que ela simplesmente deixa de fora, sem que ninguém perceba.

Os dois são perigosos porque a IA apresenta o certo e o errado com a mesma fluência e a mesma segurança, e mesmo as IAs jurídicas especializadas podem errar.

Bernardo de Azevedo, advogado e perito digital

Uma citação incorreta de jurisprudência é relativamente fácil de conferir: basta buscar a súmula ou o julgado mencionado. Já a ausência de um argumento relevante no resumo gerado pela IA tende a passar despercebida, porque não há nada ali que chame atenção para o que falta.

Azevedo dá um exemplo concreto: uma súmula referenciada de forma imprecisa em um recurso pode levar à sua não admissão pelo juiz, e o advogado só descobre o problema depois que o dano já está feito. Ele também chama atenção para outro comportamento comum nos modelos de IA generativa: a tendência de concordar com quem pergunta, em vez de questionar a premissa. Na prática, isso significa que pedir para a ferramenta avaliar uma tese jurídica pode trazer de volta só o reforço da posição que você já defendia, sem apontar suas fragilidades.

Como reduzir o risco na revisão do dia a dia

A recomendação de Azevedo não é parar de usar a ferramenta, mas mudar a forma como o resultado é conferido. Ele sugere um roteiro de checagem antes de confiar em qualquer resumo automatizado:

  1. Pedir que a IA aponte os documentos e trechos específicos que sustentam cada afirmação.
  2. Conferir a existência e a exatidão dessas referências nas fontes originais.
  3. Consultar normas e precedentes em bases oficiais, não só no que o modelo resumiu.
  4. Ler as peças principais do processo, mesmo quando a IA já produziu um resumo.

O ponto central é que a confiança excessiva no resultado tende a corroer, aos poucos, o rigor da conferência. Quanto mais a ferramenta acerta no dia a dia, maior a tentação de pular etapas da revisão, exatamente quando um erro silencioso pode custar um recurso ou um prazo.

Sigilo de cliente e LGPD: a lacuna que a pesquisa escancarou

O risco não está só na qualidade da peça. Está também no que entra na ferramenta antes dela produzir qualquer resposta. A pesquisa da AASP mostrou que apenas 16,7% dos participantes contam com políticas formais e documentadas sobre o uso de IA no escritório. Mais grave: 50,4% disseram não saber ou não ter certeza sobre quais dados de clientes podem ser inseridos em ferramentas generativas.

Na ausência de regras formais, cada advogado decide sozinho o que pode ou não digitar no chat. O resultado pode ser a exposição de informação protegida por sigilo profissional e o descumprimento da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), a lei brasileira que regula como dados pessoais podem ser coletados e usados.

Para reduzir esse risco, Azevedo recomenda um conjunto de medidas práticas para o escritório, não só para o profissional isolado:

  • Verificar as configurações de privacidade de cada ferramenta usada.
  • Avaliar se é possível impedir que os dados enviados sejam usados para treinar o modelo.
  • Compartilhar apenas a informação estritamente necessária para a tarefa.
  • Remover, sempre que possível, dados que identifiquem o cliente.
  • Informar ao cliente que a ferramenta está sendo usada no caso dele.

Esse último ponto tem uma implicação direta no seu contrato de honorários. Azevedo sugere que o uso de IA seja esclarecido no próprio contrato, para que o cliente saiba, desde o início, como a tecnologia vai entrar na prestação do serviço. Isso não é só transparência: é também uma camada de proteção para o escritório, caso um dia a questão vire objeto de reclamação disciplinar ou ação de responsabilidade civil.

O que isso muda para quem está formando a próxima geração de advogados

A pesquisa também levanta uma questão para quem forma e contrata estagiários e advogados juniores. Azevedo observa que profissionais formados antes da popularização da IA generativa desenvolveram parte do raciocínio jurídico fazendo, na marra, o trabalho de pesquisar, selecionar informação e redigir do zero.

Quem começa a carreira já com acesso irrestrito a essas ferramentas pode entregar peças bem estruturadas sem necessariamente ter desenvolvido, na mesma medida, a capacidade de fazer isso sozinho. O risco, para o escritório, é formar uma geração de advogados que sabe operar a ferramenta, mas tem dificuldade de perceber quando ela erra.

A saída que Azevedo propõe não é proibir o uso de IA nos estágios e na faculdade, e sim ensinar o uso crítico: pedir que o estudante tente resolver o problema jurídico antes de consultar a ferramenta, e reservar momentos de estudo sem apoio de IA nenhuma. Para o sócio ou o coordenador de um escritório, isso é um argumento concreto para incluir na política interna de uso de IA: nem todo treinamento deveria começar e terminar no prompt.

O quadro que a pesquisa da AASP desenha é de uma categoria que já decidiu usar a ferramenta, mas ainda não formalizou como. Entre os 78,3% que aumentaram o uso e os 16,7% que têm política documentada sobre isso, há uma lacuna grande o suficiente para que cada advogado, hoje, tenha que criar suas próprias regras de revisão e de sigilo, de preferência antes que um erro silencioso apareça num processo real.

Fonte: Metrópoles

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