Pesquisa da AASP mostra avanço da IA na advocacia e alerta para risco de erros invisíveis
Levantamento da Associação dos Advogados de São Paulo mostra que quase 8 em cada 10 advogados aumentaram o uso de IA no último semestre, mas a maioria teme erros e poucos têm regras claras sobre sigilo de dados de clientes.
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Este artigo foi escrito por Redação AI Brasil. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.
O uso de inteligência artificial virou rotina em boa parte dos escritórios de advocacia, mas a pressa de incorporar a ferramenta não vem acompanhada, na mesma velocidade, de regras claras sobre como revisar o que ela produz. É o que mostra uma pesquisa da Associação dos Advogados de São Paulo (AASP), aplicada durante o evento Diálogos: IA e Advocacia e divulgada pelo Metrópoles. O levantamento reuniu cerca de 300 respostas de profissionais da área.
Se você é advogado e já pede para uma IA resumir um processo, rascunhar uma peça ou revisar um contrato, os números da pesquisa provavelmente batem com a sua experiência: mais uso, mais desconfiança e pouca estrutura formal por trás disso.
O que a pesquisa da AASP encontrou
Os dados mostram um setor que adotou a tecnologia rápido, mas sem abandonar o ceticismo:
- 78,3% dos participantes relataram aumento no uso de IA nos últimos seis meses.
- 88,4% deram nota de 8 a 10 ao potencial da tecnologia para transformar a advocacia nos próximos cinco anos.
- 86,6% relataram temer erros e informações inventadas pela IA.
- 99,3% afirmaram não ter usado uma peça jurídica produzida por IA sem revisão profissional.
A advocacia está disposta a compartilhar tarefas com a inteligência artificial, mas não a transferir a ela suas responsabilidades. Esse entusiasmo vem acompanhado de uma consciência crítica importante.
Paula Lima Hyppolito de Oliveira, presidente da AASP
Esse conjunto de números descreve exatamente o que o advogado de escritório médio já sabe por instinto: a IA acelera a pesquisa e o rascunho, mas ninguém assina uma petição sem reler linha por linha.
O erro que você vê e o argumento que desaparece sem avisar
Para o advogado Bernardo de Azevedo, pós-doutor em Direito, perito digital e professor de Direito Digital, o problema mais sério não é necessariamente a informação falsa que a ferramenta inventa. É o argumento que ela simplesmente deixa de fora, sem que ninguém perceba.
Os dois são perigosos porque a IA apresenta o certo e o errado com a mesma fluência e a mesma segurança, e mesmo as IAs jurídicas especializadas podem errar.
Bernardo de Azevedo, advogado e perito digital
Uma citação incorreta de jurisprudência é relativamente fácil de conferir: basta buscar a súmula ou o julgado mencionado. Já a ausência de um argumento relevante no resumo gerado pela IA tende a passar despercebida, porque não há nada ali que chame atenção para o que falta.
Azevedo dá um exemplo concreto: uma súmula referenciada de forma imprecisa em um recurso pode levar à sua não admissão pelo juiz, e o advogado só descobre o problema depois que o dano já está feito. Ele também chama atenção para outro comportamento comum nos modelos de IA generativa: a tendência de concordar com quem pergunta, em vez de questionar a premissa. Na prática, isso significa que pedir para a ferramenta avaliar uma tese jurídica pode trazer de volta só o reforço da posição que você já defendia, sem apontar suas fragilidades.
Como reduzir o risco na revisão do dia a dia
A recomendação de Azevedo não é parar de usar a ferramenta, mas mudar a forma como o resultado é conferido. Ele sugere um roteiro de checagem antes de confiar em qualquer resumo automatizado:
- Pedir que a IA aponte os documentos e trechos específicos que sustentam cada afirmação.
- Conferir a existência e a exatidão dessas referências nas fontes originais.
- Consultar normas e precedentes em bases oficiais, não só no que o modelo resumiu.
- Ler as peças principais do processo, mesmo quando a IA já produziu um resumo.
O ponto central é que a confiança excessiva no resultado tende a corroer, aos poucos, o rigor da conferência. Quanto mais a ferramenta acerta no dia a dia, maior a tentação de pular etapas da revisão, exatamente quando um erro silencioso pode custar um recurso ou um prazo.
Sigilo de cliente e LGPD: a lacuna que a pesquisa escancarou
O risco não está só na qualidade da peça. Está também no que entra na ferramenta antes dela produzir qualquer resposta. A pesquisa da AASP mostrou que apenas 16,7% dos participantes contam com políticas formais e documentadas sobre o uso de IA no escritório. Mais grave: 50,4% disseram não saber ou não ter certeza sobre quais dados de clientes podem ser inseridos em ferramentas generativas.
Na ausência de regras formais, cada advogado decide sozinho o que pode ou não digitar no chat. O resultado pode ser a exposição de informação protegida por sigilo profissional e o descumprimento da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), a lei brasileira que regula como dados pessoais podem ser coletados e usados.
Para reduzir esse risco, Azevedo recomenda um conjunto de medidas práticas para o escritório, não só para o profissional isolado:
- Verificar as configurações de privacidade de cada ferramenta usada.
- Avaliar se é possível impedir que os dados enviados sejam usados para treinar o modelo.
- Compartilhar apenas a informação estritamente necessária para a tarefa.
- Remover, sempre que possível, dados que identifiquem o cliente.
- Informar ao cliente que a ferramenta está sendo usada no caso dele.
Esse último ponto tem uma implicação direta no seu contrato de honorários. Azevedo sugere que o uso de IA seja esclarecido no próprio contrato, para que o cliente saiba, desde o início, como a tecnologia vai entrar na prestação do serviço. Isso não é só transparência: é também uma camada de proteção para o escritório, caso um dia a questão vire objeto de reclamação disciplinar ou ação de responsabilidade civil.
O que isso muda para quem está formando a próxima geração de advogados
A pesquisa também levanta uma questão para quem forma e contrata estagiários e advogados juniores. Azevedo observa que profissionais formados antes da popularização da IA generativa desenvolveram parte do raciocínio jurídico fazendo, na marra, o trabalho de pesquisar, selecionar informação e redigir do zero.
Quem começa a carreira já com acesso irrestrito a essas ferramentas pode entregar peças bem estruturadas sem necessariamente ter desenvolvido, na mesma medida, a capacidade de fazer isso sozinho. O risco, para o escritório, é formar uma geração de advogados que sabe operar a ferramenta, mas tem dificuldade de perceber quando ela erra.
A saída que Azevedo propõe não é proibir o uso de IA nos estágios e na faculdade, e sim ensinar o uso crítico: pedir que o estudante tente resolver o problema jurídico antes de consultar a ferramenta, e reservar momentos de estudo sem apoio de IA nenhuma. Para o sócio ou o coordenador de um escritório, isso é um argumento concreto para incluir na política interna de uso de IA: nem todo treinamento deveria começar e terminar no prompt.
O quadro que a pesquisa da AASP desenha é de uma categoria que já decidiu usar a ferramenta, mas ainda não formalizou como. Entre os 78,3% que aumentaram o uso e os 16,7% que têm política documentada sobre isso, há uma lacuna grande o suficiente para que cada advogado, hoje, tenha que criar suas próprias regras de revisão e de sigilo, de preferência antes que um erro silencioso apareça num processo real.
Fonte: Metrópoles
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