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Escritório e direito

Ter inteligência artificial não vai mais ser diferencial para advogados

Quando a ferramenta virar commodity entre advogados, o que separa a boa advocacia da ruim é a pergunta que o profissional sabe fazer, não a resposta que a máquina entrega primeiro.

Bruno CarvalhoColunista

· 5 min de leitura

Este artigo foi escrito por Bruno Carvalho. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

O acesso à ferramenta vai deixar de ser vantagem

Eu acompanho há meses a mesma pergunta circulando entre colegas de escritório: quem usa inteligência artificial primeiro ganha a corrida. Discordo da premissa. O acesso à ferramenta nunca foi o fator decisivo em nenhuma transição tecnológica da advocacia, da máquina de escrever ao processo eletrônico, e com a IA não vai ser diferente.

O motivo é simples. O advogado do autor vai ter o mesmo modelo que o advogado do réu. O escritório grande vai ter a mesma ferramenta que o departamento jurídico pequeno. E o próprio Judiciário já está incorporando IA aos seus sistemas. Quando todo mundo tem a mesma caneta, a diferença volta a ser quem sabe o que escrever com ela.

A pergunta certa vale mais que a resposta rápida

Imagine um caso comum: existe um documento relevante nos autos e a IA sugere juntá-lo porque ele reforça a tese do cliente. Parece óbvio. Mas se o ônus de provar aquele fato é da parte contrária, juntar o documento agora pode suprir uma deficiência probatória que não era problema seu.

A ferramenta pergunta se o documento ajuda a tese. O advogado experiente precisa perguntar outra coisa: de quem é o ônus de provar esse fato, e quais as consequências processuais de produzir essa prova agora. São perguntas diferentes, e levam a estratégias opostas. Isso não é um detalhe técnico, é o núcleo do raciocínio jurídico que nenhum modelo formula sozinho porque ele não sabe qual pergunta é juridicamente importante antes que alguém a faça.

A IA erra, e erra de um jeito difícil de perceber

Aqui entra o ponto que menos aparece nas demonstrações bonitas de produto. Um estudo de Varun Magesh, Faiz Surani, Matthew Dahl, Mirac Suzgun, Christopher Manning e Daniel Ho, publicado no Journal of Empirical Legal Studies em 2025, avaliou ferramentas especializadas de pesquisa jurídica com IA de dois grandes fornecedores e encontrou taxas de alucinação superiores a 17%, mesmo em sistemas desenhados especificamente para reduzir esse problema.

Um precedente inventado pode soar perfeitamente verdadeiro. Uma fundamentação mal construída pode vir com uma redação impecável. A fluência da resposta não é prova de que ela está certa, e quanto menos Direito o usuário souber, menor é a chance de perceber o erro antes de protocolar. É por isso que, na minha leitura, o profissional mais arriscado não é o que ignora a IA: é o que conhece a ferramenta o suficiente para confiar nela e conhece pouco Direito o suficiente para não desconfiar.

O que CNJ e OAB já decidiram sobre isso

O debate já saiu do campo especulativo. A Resolução nº 615, de 11 de março de 2025, do Conselho Nacional de Justiça, estabelece diretrizes de governança para IA no Judiciário e fixa que seu uso deve ter caráter auxiliar e complementar, sem substituir a orientação, a interpretação, a verificação e a revisão humanas nas decisões judiciais.

Em 10 de junho de 2026, o Conselho Federal da OAB anunciou o Plano Nacional de Integração de Inteligência Artificial na Advocacia, com frentes de governança, capacitação, ética e uso responsável da tecnologia pela categoria. A mensagem institucional dos dois órgãos converge: a questão não é mais usar ou não usar IA, é aprender a usar sem terceirizar o julgamento.

Na prática, isso tem um efeito direto no seu escritório: o que a IA rascunha, uma pessoa revisa, e essa revisão precisa ficar registrada, porque é ela que sustenta sua responsabilidade profissional se algo sair errado.

O contra-argumento que merece ser levado a sério

Alguém pode dizer que esse discurso sobre julgamento e experiência serve, convenientemente, para proteger quem já é sênior e desvalorizar quem está começando. Se a IA barateia a produção de uma petição tecnicamente correta, por que o advogado recém-formado, que domina a ferramenta e estuda o caso com cuidado, não poderia competir de igual para igual com quem tem vinte anos de banca?

Essa objeção tem fundamento parcial. A IA de fato reduz a distância que a experiência costumava garantir em tarefas de pesquisa e redação. Mas ela não ensina sozinha a reconhecer qual documento falta nos autos, qual prova foi produzida fora de hora ou qual argumento da outra parte ainda não apareceu. Isso continua vindo de ter visto o caso errado acontecer antes, não de ter acesso a um modelo melhor. A IA encurta a curva de aprendizado de quem já sabe o que procurar, e isso é uma boa notícia para advogados jovens dispostos a estudar Direito com a mesma disciplina de antes. Mas ela não substitui essa disciplina.

Dois advogados, a mesma ferramenta, resultados diferentes

Imagine dois profissionais com acesso ao mesmo modelo de IA diante do mesmo processo. O primeiro manda o processo e pede: "faça minha defesa". Recebe quarenta páginas, ajusta alguns detalhes e protocola. O segundo usa a mesma ferramenta para reconstruir a cronologia dos fatos, separar o que é prova do que é alegação, identificar documentos que faltam, testar a própria tese como se fosse o adversário, conferir cada precedente citado e só então decidir a estratégia.

Os dois usaram inteligência artificial. Só um multiplicou a própria inteligência com ela. Essa diferença, não o acesso à ferramenta, é o que vai separar os escritórios daqui a cinco anos.

O que isso muda no seu dia a dia agora

Se você advoga e já usa IA para minutas, pesquisa ou resumo de autos, três cuidados concretos valem mais que qualquer promessa de produtividade:

  • Confira todo precedente citado pela IA na fonte original antes de levar ao processo, porque a taxa de alucinação medida em ferramentas jurídicas especializadas já passou de 17%.
  • Nunca envie dado de cliente, nome de parte ou peça de processo sigiloso para uma ferramenta sem contrato de confidencialidade e política de retenção de dados clara, verificando isso nos termos de uso antes do primeiro upload.
  • Documente o processo de revisão humana sobre o que a IA produziu, porque é esse registro que demonstra diligência profissional caso a estratégia seja questionada depois.

A inteligência artificial vai mesmo tornar um bom advogado mais eficiente. Mas vai permitir, com a mesma facilidade, que um advogado despreparado produza um erro muito mais bonito e muito mais rápido. A ferramenta não resolve essa diferença. Ela só torna mais visível quem sempre soube fazer a pergunta certa.

Fonte: Migalhas

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Quem escreveuBruno CarvalhoColunista

Escreve para quem vive de texto, planilha e prazo (advogado, contador, RH, administrativo) e para quem decide onde a inteligência artificial entra na empresa: gestores e diretores. Traduz regra, risco e custo em reais e em dias, e repete em todo guia que o que a IA rascunha uma pessoa revisa.

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