Ter inteligência artificial não vai mais ser diferencial para advogados
Quando a ferramenta virar commodity entre advogados, o que separa a boa advocacia da ruim é a pergunta que o profissional sabe fazer, não a resposta que a máquina entrega primeiro.
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Este artigo foi escrito por Bruno Carvalho. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.
O acesso à ferramenta vai deixar de ser vantagem
Eu acompanho há meses a mesma pergunta circulando entre colegas de escritório: quem usa inteligência artificial primeiro ganha a corrida. Discordo da premissa. O acesso à ferramenta nunca foi o fator decisivo em nenhuma transição tecnológica da advocacia, da máquina de escrever ao processo eletrônico, e com a IA não vai ser diferente.
O motivo é simples. O advogado do autor vai ter o mesmo modelo que o advogado do réu. O escritório grande vai ter a mesma ferramenta que o departamento jurídico pequeno. E o próprio Judiciário já está incorporando IA aos seus sistemas. Quando todo mundo tem a mesma caneta, a diferença volta a ser quem sabe o que escrever com ela.
A pergunta certa vale mais que a resposta rápida
Imagine um caso comum: existe um documento relevante nos autos e a IA sugere juntá-lo porque ele reforça a tese do cliente. Parece óbvio. Mas se o ônus de provar aquele fato é da parte contrária, juntar o documento agora pode suprir uma deficiência probatória que não era problema seu.
A ferramenta pergunta se o documento ajuda a tese. O advogado experiente precisa perguntar outra coisa: de quem é o ônus de provar esse fato, e quais as consequências processuais de produzir essa prova agora. São perguntas diferentes, e levam a estratégias opostas. Isso não é um detalhe técnico, é o núcleo do raciocínio jurídico que nenhum modelo formula sozinho porque ele não sabe qual pergunta é juridicamente importante antes que alguém a faça.
A IA erra, e erra de um jeito difícil de perceber
Aqui entra o ponto que menos aparece nas demonstrações bonitas de produto. Um estudo de Varun Magesh, Faiz Surani, Matthew Dahl, Mirac Suzgun, Christopher Manning e Daniel Ho, publicado no Journal of Empirical Legal Studies em 2025, avaliou ferramentas especializadas de pesquisa jurídica com IA de dois grandes fornecedores e encontrou taxas de alucinação superiores a 17%, mesmo em sistemas desenhados especificamente para reduzir esse problema.
Um precedente inventado pode soar perfeitamente verdadeiro. Uma fundamentação mal construída pode vir com uma redação impecável. A fluência da resposta não é prova de que ela está certa, e quanto menos Direito o usuário souber, menor é a chance de perceber o erro antes de protocolar. É por isso que, na minha leitura, o profissional mais arriscado não é o que ignora a IA: é o que conhece a ferramenta o suficiente para confiar nela e conhece pouco Direito o suficiente para não desconfiar.
O que CNJ e OAB já decidiram sobre isso
O debate já saiu do campo especulativo. A Resolução nº 615, de 11 de março de 2025, do Conselho Nacional de Justiça, estabelece diretrizes de governança para IA no Judiciário e fixa que seu uso deve ter caráter auxiliar e complementar, sem substituir a orientação, a interpretação, a verificação e a revisão humanas nas decisões judiciais.
Em 10 de junho de 2026, o Conselho Federal da OAB anunciou o Plano Nacional de Integração de Inteligência Artificial na Advocacia, com frentes de governança, capacitação, ética e uso responsável da tecnologia pela categoria. A mensagem institucional dos dois órgãos converge: a questão não é mais usar ou não usar IA, é aprender a usar sem terceirizar o julgamento.
Na prática, isso tem um efeito direto no seu escritório: o que a IA rascunha, uma pessoa revisa, e essa revisão precisa ficar registrada, porque é ela que sustenta sua responsabilidade profissional se algo sair errado.
O contra-argumento que merece ser levado a sério
Alguém pode dizer que esse discurso sobre julgamento e experiência serve, convenientemente, para proteger quem já é sênior e desvalorizar quem está começando. Se a IA barateia a produção de uma petição tecnicamente correta, por que o advogado recém-formado, que domina a ferramenta e estuda o caso com cuidado, não poderia competir de igual para igual com quem tem vinte anos de banca?
Essa objeção tem fundamento parcial. A IA de fato reduz a distância que a experiência costumava garantir em tarefas de pesquisa e redação. Mas ela não ensina sozinha a reconhecer qual documento falta nos autos, qual prova foi produzida fora de hora ou qual argumento da outra parte ainda não apareceu. Isso continua vindo de ter visto o caso errado acontecer antes, não de ter acesso a um modelo melhor. A IA encurta a curva de aprendizado de quem já sabe o que procurar, e isso é uma boa notícia para advogados jovens dispostos a estudar Direito com a mesma disciplina de antes. Mas ela não substitui essa disciplina.
Dois advogados, a mesma ferramenta, resultados diferentes
Imagine dois profissionais com acesso ao mesmo modelo de IA diante do mesmo processo. O primeiro manda o processo e pede: "faça minha defesa". Recebe quarenta páginas, ajusta alguns detalhes e protocola. O segundo usa a mesma ferramenta para reconstruir a cronologia dos fatos, separar o que é prova do que é alegação, identificar documentos que faltam, testar a própria tese como se fosse o adversário, conferir cada precedente citado e só então decidir a estratégia.
Os dois usaram inteligência artificial. Só um multiplicou a própria inteligência com ela. Essa diferença, não o acesso à ferramenta, é o que vai separar os escritórios daqui a cinco anos.
O que isso muda no seu dia a dia agora
Se você advoga e já usa IA para minutas, pesquisa ou resumo de autos, três cuidados concretos valem mais que qualquer promessa de produtividade:
- Confira todo precedente citado pela IA na fonte original antes de levar ao processo, porque a taxa de alucinação medida em ferramentas jurídicas especializadas já passou de 17%.
- Nunca envie dado de cliente, nome de parte ou peça de processo sigiloso para uma ferramenta sem contrato de confidencialidade e política de retenção de dados clara, verificando isso nos termos de uso antes do primeiro upload.
- Documente o processo de revisão humana sobre o que a IA produziu, porque é esse registro que demonstra diligência profissional caso a estratégia seja questionada depois.
A inteligência artificial vai mesmo tornar um bom advogado mais eficiente. Mas vai permitir, com a mesma facilidade, que um advogado despreparado produza um erro muito mais bonito e muito mais rápido. A ferramenta não resolve essa diferença. Ela só torna mais visível quem sempre soube fazer a pergunta certa.
Fonte: Migalhas

Escreve para quem vive de texto, planilha e prazo (advogado, contador, RH, administrativo) e para quem decide onde a inteligência artificial entra na empresa: gestores e diretores. Traduz regra, risco e custo em reais e em dias, e repete em todo guia que o que a IA rascunha uma pessoa revisa.