Estudo liga IA no contencioso de massa a salários até 43% maiores
Levantamento citado pelo Migalhas e reproduzido pelo Juristas mostra que a IA não reduziu vagas no contencioso de massa: o volume de processos cresceu tanto que a demanda por advogados especializados aumentou junto, e quem usa a tecnologia ganha mais.
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Este artigo foi escrito por Bruno Carvalho. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.
Um estudo divulgado pelo Migalhas e reproduzido pelo Juristas em 8 de outubro de 2026 traz um dado que interessa direto a quem atua ou pensa em atuar com grandes volumes de processos: a inteligência artificial não está encolhendo o mercado de contencioso de massa, está aquecendo ele. O levantamento cruza dados públicos do Judiciário brasileiro, entrevistas com advogados e referências internacionais, segundo a reportagem assinada por Mateus Costa Ribeiro.
O recorte é relevante porque contraria o medo mais comum entre advogados júnior e estagiários: o de que a automação de petições e análises repetitivas vá sobrar poucas vagas. Os números apontam o contrário, pelo menos neste segmento específico da advocacia.
O volume de processos cresceu mais rápido que a produtividade da IA
Segundo o estudo, o crescimento anual do número de processos no Brasil ficava entre 2% e 3% desde 2009. Em 2022, esse ritmo saltou para 8% ao ano. Entre grandes empresas, o avanço foi ainda maior: 16% ao ano nos processos cíveis.
Esse é o dado que explica o resto da história. Quando o volume de litígios cresce mais rápido do que a tecnologia consegue absorver em ganho de produtividade, o resultado não é menos trabalho para advogados: é mais trabalho distribuído de outro jeito, com a IA cuidando do que é repetitivo e o profissional assumindo o que exige julgamento.
Poucos escritórios concentram a maior parte do volume
O estudo estima que cerca de 2% dos 1,5 milhão de advogados registrados no Brasil atuam especificamente em contencioso de massa. Esse grupo pequeno responde por mais de 70% do volume total de processos judiciais envolvendo as maiores empresas do país.
É um mercado concentrado e, pelos dados do levantamento, em expansão: entre 2018 e 2025, o número de advogados empregados nesse segmento cresceu em média 3% ao ano no Brasil. O estudo cita movimento parecido nos Estados Unidos, no Reino Unido e na França, o que sugere que não é um fenômeno isolado da Justiça brasileira, mas algo ligado à forma como litígios em escala se multiplicam globalmente.
Para quem está decidindo em que área se especializar dentro da advocacia, esse é o tipo de dado que pesa: contencioso de massa não é um nicho encolhendo, é um nicho que cresce justamente por causa (e não apesar) da automação.
Quem usa a ferramenta certa ganha mais, segundo o levantamento
A parte que mais chama atenção do estudo é a comparação salarial entre profissionais de escritórios de contencioso de massa que usam uma ferramenta de IA específica, da empresa Enter, e os que não usam. A diferença média de remuneração apontada foi:
- 19% a mais entre estagiários
- 14% a mais entre advogados juniores
- 43% a mais entre advogados plenos
O salto entre plenos chama atenção porque é justamente onde a IA teoricamente teria menos o que fazer: advogados plenos já concentram trabalho de estratégia, não de triagem documental. A leitura mais plausível é que, liberado da parte operacional, o pleno consegue atender mais processos no mesmo tempo, e isso se reflete no quanto ele entrega (e no quanto recebe).
Vale um cuidado de leitura aqui: o estudo correlaciona uso da ferramenta com remuneração maior, mas não necessariamente prova que uma causa a outra. Escritórios que já pagam melhor também podem ser os que têm orçamento para investir em tecnologia. O dado é forte, mas não é prova de causalidade isolada.
O que a IA tira da mesa do advogado, e o que não tira
No contencioso de massa, a promessa da IA é liberar tempo que hoje vai para tarefas operacionais (triagem de documentos, identificação de teses repetidas, organização de prazos em volume) para que o advogado foque em análise, definição de estratégia e tomada de decisão.
O estudo é claro em um ponto que vale repetir: a decisão jurídica continua sendo do profissional. A IA pode apontar o que é relevante num processo, mas não decide a tese, não assina a peça e não responde perante o cliente ou o tribunal pela estratégia adotada. O que a IA rascunha, uma pessoa revisa, e isso vale tanto para a petição gerada quanto para qualquer resumo de processo que a ferramenta entregue.
O setor aéreo mostra o tamanho do problema que a IA tenta resolver
O estudo usa o setor aéreo como exemplo do que é, na prática, contencioso de massa. O Brasil representa cerca de 3% do tráfego aéreo mundial, mas concentra 98,5% dos processos judiciais movidos contra companhias aéreas no mundo inteiro.
Ésse descompasso é o motivo pelo qual escritórios que atendem companhias aéreas precisam de ferramentas capazes de processar volume: não é um caso isolado de litigância predatória, é um padrão estrutural da judicialização no país, e a IA entra aí como forma de dar conta do volume sem multiplicar a equipe na mesma proporção que o número de processos cresce.
O que fica de fora do estudo e o cuidado que o advogado precisa ter
O levantamento não detalha qual ferramenta exatamente cada escritório usa além da citada da Enter, nem como os dados de remuneração foram coletados (se é autodeclarado, se vem de folha de pagamento). Também não aborda um ponto que pesa na prática diária de quem atua com contencioso de massa: a maioria dos processos envolve dados pessoais de clientes e partes, e enviar isso para uma ferramenta de IA sem cláusula contratual de confidencialidade e sem avaliar o tratamento de dados feito pelo fornecedor é risco, não ganho de produtividade.
A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018) não abre exceção para ferramentas de IA: dado de cliente processado por terceiro exige base legal e, na prática de escritório, contrato que defina o que o fornecedor pode e não pode fazer com a informação. Antes de rodar petição ou documento de cliente numa ferramenta nova, vale conferir se existe contrato de processamento de dados assinado com o fornecedor e se a ferramenta diz onde os dados são armazenados e por quanto tempo.
O quadro que o estudo desenha é de um mercado que não está encolhendo com a IA, mas mudando o que se espera de quem entra nele: menos tempo em triagem manual, mais cobrança por capacidade de análise e estratégia, e ganho de remuneração para quem domina a ferramenta certa sem abrir mão do cuidado com o dado do cliente.
Fonte: Juristas

Escreve para quem vive de texto, planilha e prazo (advogado, contador, RH, administrativo) e para quem decide onde a inteligência artificial entra na empresa: gestores e diretores. Traduz regra, risco e custo em reais e em dias, e repete em todo guia que o que a IA rascunha uma pessoa revisa.