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Agente de IA ajuda a escolher árbitro com dados, não com a rede de contatos do escritório

A Jus Mundi lançou em beta privado um agente de IA que cruza perfis, publicações e casos anteriores para apoiar a indicação de árbitros. Para quem atua em arbitragem no Brasil, a ferramenta promete reduzir viés de rede de contatos, mas exige cuidado redobrado com sigilo e verificação.

Bruno CarvalhoColunista

· 6 min de leitura

Este artigo foi escrito por Bruno Carvalho. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.

Um problema concreto: como achar o árbitro certo sem depender só da rede de contatos

Escolher o árbitro de um caso é uma das decisões mais caras de um processo arbitral. Diferente de um juiz togado, o árbitro é indicado pelas partes ou pela instituição, e essa escolha pode definir o rumo de uma disputa que envolve milhões em contratos internacionais, societários ou de infraestrutura.

Na prática, quem monta a lista de candidatos ainda depende de pesquisa manual: currículo espalhado em site de escritório, artigos publicados, laudos de casos anteriores e, principalmente, indicação boca a boca dentro da própria rede profissional. Isso tem um efeito colateral conhecido: reforça sempre os mesmos nomes.

Um artigo assinado por Jean-Rémi de Maistre, CEO da Jus Mundi, publicado em 2 de novembro de 2026 no site Artificial Lawyer, traz um dado que ilustra o tamanho do problema. Segundo a análise da própria Jus Mundi sobre estatísticas de 2024 e 2025 de grandes instituições arbitrais, mulheres árbitras representaram entre 35% e 46% das nomeações feitas diretamente pelas instituições, mas apenas entre 17% e 24% das indicações feitas pelas próprias partes. A diferença mostra que, quando a escolha fica a cargo do advogado, a rede de contatos pesa mais do que o critério técnico.

Vale um parêntese de transparência: o texto que embasa esta matéria é um artigo pago, publicado como "thought leadership patrocinado" pela própria Jus Mundi no Artificial Lawyer. Isso não invalida os dados, mas significa que a empresa está, ao mesmo tempo, descrevendo um problema e vendendo a solução para ele.

O anúncio: Jus AI entra em beta privado para pesquisa de árbitros

Em 27 de outubro de 2026, a Jus Mundi anunciou a versão beta privada de uma função de busca de árbitros dentro do Jus AI, seu agente de inteligência artificial para arbitragem internacional. A ferramenta trabalha em duas etapas: primeiro identifica praticantes compatíveis com os critérios do caso e da nomeação, depois pesquisa a fundo cada candidato específico antes de ele ser indicado, aceitar o encargo ou ser objeto de impugnação.

Por trás da busca está o Jus Connect, banco com milhares de perfis profissionais já associados a dados documentais, combinado ao acervo de materiais de arbitragem da própria Jus Mundi. O sistema roda sobre o Tenet v5, modelo de linguagem proprietário construído especificamente para arbitragem, com arquitetura de agentes e revisão de qualidade feita por advogados da empresa. Há também o recurso My Sources, que permite ao usuário subir documentos próprios do caso para a pesquisa.

Um ponto de design chama atenção: as respostas trazem citação da fonte para verificação e sinalizam lacunas de cobertura. Segundo o anúncio, o sistema foi construído com regras explícitas sobre o que responde, quando qualifica uma resposta como incerta e o que se recusa a responder.

Os riscos que a própria empresa reconhece

O texto da Jus Mundi é incomumente franco sobre os limites do que uma IA pode fazer nessa tarefa, e isso vale a leitura com atenção. Três riscos são citados diretamente:

  • Base de evidências incompleta: informação sobre um árbitro está espalhada em perfil, artigo, prêmio e laudo, e nem sempre é fácil confirmar que todos esses registros pertencem à mesma pessoa.
  • Superinterpretação da experiência: ter atuado como árbitro num caso não prova aptidão para outro, e a ferramenta precisa distinguir a opinião pessoal de um profissional (num artigo, por exemplo) da decisão coletiva de um tribunal do qual ele só fez parte.
  • Viés algorítmico: um sistema de IA pode reproduzir padrões históricos de nomeação, inclusive os mesmos que hoje concentram indicações nos nomes mais conhecidos.

Uma frase do próprio CEO resume bem o limite da proposta:

A escolha do árbitro continua sendo mais uma arte do que uma ciência: a evidência informa a decisão, mas não resolve todas as questões de adequação.

Arbitrator selection remains more an art than a science: evidence informs the decision but cannot resolve every question of fit.Jean-Rémi de Maistre, CEO da Jus Mundi

O texto também defende que o sistema não deve emitir "veredito": a recomendação precisa ser explicável, com caminho de volta à fonte original, e a comparação entre candidatos deve ser organizada por critério do caso, não reduzida a uma pontuação falsamente precisa. Ausência de informação sobre um candidato, segundo a Jus Mundi, não deve ser lida como ausência de experiência.

O que muda para quem atua em arbitragem no Brasil

Câmaras como o CAM-CCBC, o CBMA e a Câmara de Arbitragem do Mercado já lidam com um volume crescente de procedimentos envolvendo advogados brasileiros, muitos deles em disputas com conexão internacional. Para esse advogado, uma ferramenta que cruza currículo, publicações e histórico de casos de um candidato a árbitro ataca um gargalo real: o tempo gasto reunindo manualmente esse dossiê, que hoje é feito artigo por artigo, perfil por perfil.

Isso não elimina o trabalho do advogado, e a própria Jus Mundi reconhece isso. O rascunho de pesquisa que a IA entrega precisa ser conferido por quem assina a indicação ou a objeção ao árbitro. Uma citação errada, um dado desatualizado ou uma inferência mal calibrada sobre a independência de um candidato pode virar fundamento de impugnação contra a própria parte que confiou cegamente no relatório automático.

Há também um ponto prático de acesso: o recurso está em beta privado, o que significa que nem todo escritório brasileiro vai conseguir testar a ferramenta hoje. A Jus Mundi diz que pretende convidar membros do seu comitê de missão, clientes, parceiros e organizações com expertise em diversidade e padrões profissionais para ajudar a testar e desafiar a abordagem antes do lançamento mais amplo.

Antes de soltar dado de cliente na ferramenta, confira isso

O recurso My Sources permite subir documentos do próprio caso para enriquecer a pesquisa. É exatamente aí que mora o risco de sigilo profissional: documento de arbitragem costuma conter nome de parte, termo de referência, e às vezes cláusulas contratuais sensíveis do cliente.

O Estatuto da Advocacia (Lei nº 8.906, de 4 de julho de 1994, art. 34, inciso VII) trata a violação do sigilo profissional como infração disciplinar. Isso não muda porque o canal é uma ferramenta de IA: antes de subir qualquer documento de caso para um sistema como o Jus AI, o advogado precisa confirmar com o próprio cliente que essa prática está autorizada.

A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018) também entra em jogo quando o documento carrega dado pessoal de parte, testemunha ou do próprio candidato a árbitro. Como a Jus Mundi é empresa francesa, há transferência internacional de dado a considerar, o que exige verificar as garantias previstas no artigo 33 da lei antes de qualquer envio.

Um checklist mínimo antes de usar qualquer ferramenta assim num caso real:

  1. Existe contrato de processamento de dados (DPA) assinado com o fornecedor, e não apenas o termo de uso padrão?
  2. O cliente foi informado e autorizou, por escrito, o uso de IA de terceiros na pesquisa do caso?
  3. Onde os dados ficam armazenados, e há garantia de transferência internacional adequada sob a LGPD?
  4. Cada citação ou fato trazido pela ferramenta foi conferido na fonte primária antes de constar numa petição de indicação ou impugnação de árbitro?

O que a IA rascunha, uma pessoa revisa, e nesse caso específico a revisão não é só de estilo: é o que protege o advogado de uma impugnação baseada em dado errado sobre o próprio árbitro que ele indicou.

Fonte: Artificial Lawyer

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Quem escreveuBruno CarvalhoColunista

Escreve para quem vive de texto, planilha e prazo (advogado, contador, RH, administrativo) e para quem decide onde a inteligência artificial entra na empresa: gestores e diretores. Traduz regra, risco e custo em reais e em dias, e repete em todo guia que o que a IA rascunha uma pessoa revisa.

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