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Escritório e direito

A IA não vai substituir advogados: vai abrir espaço para o cliente que hoje desiste da causa

Um artigo de opinião publicado em Portugal defende que a IA não tira trabalho do advogado, traz mais clientes. Concordo com o diagnóstico, mas no Brasil a oportunidade é ainda maior: a demanda jurídica reprimida é gigante.

Bruno CarvalhoColunista

· 7 min de leitura

Este artigo foi escrito por Bruno Carvalho. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

Um artigo de opinião publicado em Portugal defende que a IA não tira trabalho do advogado, traz mais clientes. Concordo com o diagnóstico, mas no Brasil a oportunidade é ainda maior: a demanda jurídica reprimida é gigante.

No início de novembro, Francisco Costa e Alice Brion Sanches, da legaltech portuguesa Mowly, publicaram na ECO um texto com um título direto: a inteligência artificial não vai substituir os advogados, vai trazer-lhes mais clientes. Concordo com o diagnóstico. Mas escrevo do Brasil, onde a mesma lógica aponta para uma oportunidade ainda maior do que a que eles descrevem em Portugal.

O erro de quem discute IA e advocacia é sempre o mesmo: medir o impacto pelo trabalho que já existe. Pesquisa de jurisprudência mais rápida, resumo de processo, minuta de petição em segundos. Tudo isso é real e já está acontecendo em escritórios brasileiros. Mas é o uso mais óbvio, e óbvio demais para definir o futuro da profissão.

O medo que está na mesa errada

A preocupação dominante é que a IA vá tomar o lugar do advogado júnior que hoje pesquisa jurisprudência e redige minutas. Isso tem fundamento parcial: parte desse trabalho vai mesmo encolher. Mas focar só nisso é olhar para o lado errado do mercado.

O lado que importa é o cliente que nunca chega ao escritório. O morador que teve o seguro do carro negado por um valor que não cobre honorários. O condômino em conflito com a administração do prédio. O consumidor que levou multa de trânsito que considera indevida, ou teve o nome negativado por erro de operadora. Hoje, na imensa maioria desses casos, a pessoa desiste. Não porque não tenha razão, mas porque nenhum advogado consegue prestar o serviço a um preço que compense o tempo gasto.

O paradoxo de Jevons chega ao Juizado Especial

Em 1865, o economista britânico William Stanley Jevons observou algo contraintuitivo: quando as máquinas a vapor ficaram mais eficientes no uso do carvão, o consumo total de carvão não caiu. Subiu. Ficou tão barato usar carvão que passou a compensar empregá-lo em indústrias onde antes não valia a pena.

O mesmo pode acontecer com serviço jurídico de baixo valor. O Brasil já tem um desenho legal pensado para causas pequenas: os Juizados Especiais Cíveis, que simplificam o rito para causas de menor valor, com dispensa de advogado nas causas mais simples. Na prática, grande parte dessas causas nunca chega lá, porque a pessoa nem sabe que tem direito, ou porque, acima da faixa de dispensa, contratar advogado ainda não compensa para ela nem para ele.

Se a triagem, o cálculo de viabilidade e o primeiro rascunho da petição ficam baratos o suficiente, o cenário muda. Um volume de causas que hoje não entra na conta passa a caber na agenda do escritório, porque o custo de atender cada uma despenca. Isso não encolhe o mercado jurídico. Alarga.

Três jeitos de usar IA, e só um que move a agulha

A diferença entre usar IA para ganhar tempo e usar IA para ganhar mercado está em onde ela entra no fluxo.

Modelo de atendimentoCusto por casoCausas que passam a compensar
Tudo manual, sem IAAlto: horas de triagem e redação por casoSó causas de valor médio ou alto
IA só para redigir a petiçãoMédio: menos tempo de redação, triagem continua manualPouca mudança no volume atendido
IA para triagem, rascunho e alerta de prazo, com revisão humanaBaixo: a máquina filtra e esboça, a pessoa decide e assinaCausas de baixo valor passam a caber na agenda

A maioria dos escritórios brasileiros que já adotou IA está na linha do meio: usa para escrever mais rápido o que já escrevia. O ganho real está na linha de baixo, que exige repensar o fluxo de entrada de cliente, não só a redação.

O contra-argumento que precisa ser enfrentado

A objeção mais séria a essa tese não é técnica, é econômica e ética. Se a IA reduz tanto o custo por caso, o preço que o mercado aceita pagar também cai, e pode cair mais rápido do que o volume cresce. Nesse cenário, o escritório atende dez vezes mais causas por um preço unitário tão baixo que o faturamento total não sobe, só o volume de trabalho repetitivo de baixa margem. É o risco real de qualquer setor que vira commodity.

Há também um limite ético que o Código de Ética e Disciplina da OAB impõe: a vedação à captação de clientela e à mercantilização da advocacia. Um fluxo de triagem automatizada que lembra mais um balcão de vendas do que um serviço jurídico esbarra nessa fronteira, e o advogado responde pelo exagero, não a ferramenta.

E há o risco de citar jurisprudência que a IA inventou, um problema já conhecido em casos de uso de IA generativa no meio jurídico. A resposta a esse risco não é parar de usar IA, é nunca protocolar nada sem checar cada citação na fonte oficial. O que a IA rascunha, uma pessoa revisa, sempre, sem exceção.

O que muda na prática do escritório

Nenhuma dessas objeções anula a tese, elas definem o limite dela. O caminho que eu seguiria num escritório típico de pequenas e médias causas:

  1. Triagem automatizada por chatbot ou formulário com perguntas padrão, para separar casos com causa de pedir viável dos que não têm.
  2. Cálculo automático de prazo e valor da causa, com alerta antes do vencimento, não depois.
  3. Rascunho de petição gerado por IA a partir de modelo validado pelo escritório, nunca enviado ao cliente ou protocolado sem revisão humana.
  4. Checagem manual de toda jurisprudência citada contra a fonte oficial (tribunal, DJe, repositório do próprio tribunal), antes de qualquer protocolo.
  5. Contrato de processamento de dados assinado com o fornecedor da ferramenta de IA antes de subir qualquer documento de cliente, em linha com as exigências da LGPD, e verificação explícita de que a ferramenta não usa os dados do cliente para treinar modelo de terceiros.

O dever de sigilo não é opcional nem negociável: está previsto no Estatuto da Advocacia e é reforçado pelo Código de Ética da OAB. Antes de colar qualquer peça, contrato ou documento de cliente numa ferramenta de IA, confira três coisas: se existe contrato de tratamento de dados com o fornecedor, se os dados ficam ou saem do Brasil (transferência internacional também é regida pela LGPD), e se a ferramenta guarda ou descarta o conteúdo depois do uso.

A lacuna que a Mowly não resolve para o Brasil

O que a Mowly descreve se apoia em integrações como o CITIUS, que concentra notificações processuais em Portugal. No Brasil, o PJe é fragmentado por tribunal e estado, e cada corte tem seu próprio portal de intimação. Padronizar esse fluxo de notificações e prazos ainda depende de cada escritório montar sua própria solução, porque não existe hoje uma plataforma única que resolva essa fragmentação em todo o país.

Isso significa que nenhuma ferramenta pronta resolve sozinha a fragmentação brasileira. O escritório que quiser aproveitar essa demanda reprimida vai precisar costurar triagem, monitoramento de prazo e rascunho assistido usando mais de uma ferramenta, e mantendo o controle humano em cada ponto de decisão.

Francisco Costa e Alice Brion Sanches resumem bem o argumento central, mesmo pensando em outro país:

A eficiência não vai encolher o mercado jurídico. Vai alargá-lo, e democratizar o acesso ao direito a quem hoje fica de fora.

Francisco Costa, fundador e CEO da Mowly, e Alice Brion Sanches, Head of Legal Innovation da Mowly

No Brasil, com um Judiciário mais fragmentado e uma massa de causas pequenas ainda maior do que em Portugal, essa frase vale ainda mais. Quem vai sentir isso primeiro não é o escritório que corre atrás de reduzir custo. É o escritório que usa a IA para pegar o cliente que, até ontem, nem sabia que tinha caso.

Fonte: ECO – Economia Online

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Quem escreveuBruno CarvalhoColunista

Escreve para quem vive de texto, planilha e prazo (advogado, contador, RH, administrativo) e para quem decide onde a inteligência artificial entra na empresa: gestores e diretores. Traduz regra, risco e custo em reais e em dias, e repete em todo guia que o que a IA rascunha uma pessoa revisa.

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