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Faculdades de direito mudam aula para evitar que a IA emburreça o aluno

Pesquisas mostram queda na atividade cerebral e nas notas de prova de quem delega a escrita à IA. Faculdades de direito nos Estados Unidos já mudaram currículo, aula e avaliação para evitar o problema, e a lógica vale para qualquer sala de aula.

Marina DuarteColunista

· 5 min de leitura

Este artigo foi escrito por Marina Duarte. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

O paradoxo que a USP decidiu encarar

A Faculdade de Direito da USP, uma das mais antigas do país, criou uma comissão para repensar o que significa ensinar direito com a IA (inteligência artificial) avançando tão rápido. O advogado Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, fez a palestra que abriu a série de seminários da comissão e contou o processo em coluna na Folha publicada em 18 de outubro de 2026.

O ponto de partida é um paradoxo medido em pesquisa com estudantes de direito nos Estados Unidos em abril de 2026: 72% acham que saber usar IA é uma competência essencial para a profissão, mas 74% temem que depender dela prejudique a própria formação. O aluno sabe que precisa da ferramenta e, ao mesmo tempo, desconfia dela. Para quem coordena curso ou dá aula, esse é o mesmo nó que já aparece em qualquer disciplina, não só em direito.

O que é o débito cognitivo, e por que ele assusta

Um estudo do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) citado por Lemos mostrou que quem escreve um texto com ajuda de IA tem atividade cerebral 54% menor do que quem escreve sozinho. No dia seguinte, boa parte desses estudantes não conseguia repetir sequer uma frase do próprio texto. O nome que se dá a isso é débito cognitivo: a pessoa entrega um trabalho em seu nome, mas não domina o raciocínio que está por trás dele.

Uma pesquisa recente feita na China encontrou a mesma lógica em números de sala de aula: as notas de dever de casa estão subindo, enquanto as notas de prova estão caindo. Os alunos usam IA para resolver a lição em casa, tiram nota alta, e chegam na avaliação presencial sem saber responder o que a própria lição pedia. É o tipo de dado que deveria preocupar qualquer coordenador que usa nota de tarefa como termômetro de aprendizagem.

Pensar com, sem e sobre a IA

Diante desse quadro, a Escola de Direito da Universidade de Chicago tomou uma decisão radical: baniu o uso de IA nas disciplinas centrais do primeiro ano, e foi além. Proibiu laptop e celular em sala, voltou a aplicar provas presenciais sem acesso à internet e reforçou o método socrático, que é a aula conduzida por perguntas diretas do professor ao aluno, em vez de exposição seguida de exercício.

A ideia não é rejeitar a tecnologia, e sim proteger o momento em que o aluno ainda está construindo o raciocínio da profissão. Lemos resume a lógica em três pilares que a comissão da USP está discutindo:

Os três pilares são: pensar com, sem e sobre a IA.

Ronaldo Lemos, advogado e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro

Na prática isso significa três tipos de momento na mesma disciplina: atividades em que a IA é proibida, para o aluno treinar sozinho o que ainda não domina; atividades em que ela é obrigatória, porque já faz parte do trabalho real da profissão; e aulas dedicadas a explicar como a ferramenta funciona por dentro, com seus limites e seus erros típicos, para o aluno não tratar a resposta da IA como verdade pronta.

Como Chicago e a NYU estão cobrando que o aluno prove que aprendeu

Banir a IA de uma parte do curso só funciona se existir uma forma de checar se o aluno realmente entendeu o conteúdo, e não apenas copiou uma resposta pronta antes da proibição valer. Por isso Chicago passou a exigir que todo aluno defenda oralmente e de forma presencial os próprios trabalhos, sendo arguido pelo professor sobre o que escreveu.

A NYU (Universidade de Nova York) foi mais longe: já aplica provas orais em que o próprio aluno é arguido por um agente de IA por voz, com critérios de correção definidos pelos professores da disciplina. É uma avaliação automatizada, mas pensada para medir exatamente o que o débito cognitivo esconde: se o aluno sabe explicar, com as próprias palavras, o que entregou.

O que dá para adaptar numa escola ou faculdade fora do direito

Nenhuma dessas medidas depende de ser faculdade de direito ou de ter orçamento de universidade americana. Para um professor ou coordenador que quer aplicar a mesma lógica, a sequência prática seria:

  1. Escolher, dentro do plano de aula, quais atividades ficam protegidas da IA (prova presencial sem internet, redação em sala, apresentação oral) e quais podem usar a ferramenta abertamente, com essa divisão explicada ao aluno e, se for o caso, comunicada aos pais.
  2. Trocar parte da correção escrita por arguição oral curta: pedir que o aluno explique em poucas frases, na frente do professor ou da turma, a ideia central do que entregou.
  3. Reservar um momento de aula, mesmo que curto, para ensinar como a IA erra: por que ela pode inventar uma informação com total confiança, e como checar isso antes de confiar no resultado.
  4. Usar o dado de desempenho em dever de casa com desconfiança: se a nota de tarefa sobe mas a nota de prova cai, é sinal de que a lição está sendo feita pela IA, não pelo aluno.

Os números mostram que a mudança já é maioria, não exceção

Segundo os dados citados por Lemos, 55% das escolas de direito americanas já oferecem disciplina específica de IA, 83% usam a ferramenta nas clínicas jurídicas (os núcleos de prática real dos cursos) e 85% planejam reformar o currículo inteiro por causa da tecnologia. Não é um movimento de vanguarda isolada: é a maioria das instituições se mexendo ao mesmo tempo.

Para quem coordena um curso no Brasil, o recado é que esperar uma política nacional de uso de IA na educação para só então agir deixa a escola correndo atrás. A comissão criada pela quase bicentenária Faculdade de Direito da USP decidiu que não dava para ficar parada.

O que ainda fica em aberto

O próprio Lemos nota uma diferença que pesa no Brasil: aqui o aluno entra na faculdade com cerca de 18 anos, mais cedo do que nos Estados Unidos, o que torna o período protegido da IA ainda mais necessário no ensino superior. O que ninguém testou ainda é como essas mesmas três camadas (pensar com, sem e sobre a IA) se aplicam no ensino fundamental e médio, onde o aluno é mais novo, a turma é maior e o professor tem muito menos tempo de aula por disciplina do que um curso de direito. É esse o próximo experimento que falta alguém documentar.

Fonte: Folha Tec

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Quem escreveuMarina DuarteColunista

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