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AI para Varejo

A IA pode decidir sozinha, mas alguém no varejo tem que assinar embaixo

No CONAREC 2026, executivos do Santander, B3, Alpargatas e Weduka mostraram onde a IA já decide sozinha e onde insistem em manter uma pessoa na ponta. A linha entre as duas coisas é o que separa eficiência de exposição a prejuízo.

Débora NunesColunista

· 7 min de leitura

Este artigo foi escrito por Débora Nunes. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

Minha posição: a régua não é o quanto a IA consegue, é quanto o erro custa

Eu leio todo anúncio de automação pela mesma pergunta: se isso der errado, quem paga e quanto? No varejo, essa conta nunca é abstrata. Um preço errado replicado em 400 lojas, uma devolução negada sem motivo, um agente que promete um reembolso que a política não cobre: tudo isso tem CDC, tem cliente nas redes e tem custo de reputação que nenhum dashboard de eficiência mostra no mesmo dia.

Foi por isso que prestei atenção no painel "IA, dados e humanos na nova arquitetura da decisão", no CONAREC 2026. Executivos do Santander, da B3, da Alpargatas e da Weduka discutiram, na prática, onde a IA já decide sozinha dentro de empresas grandes e onde elas continuam exigindo uma pessoa na ponta. A fala que resume o momento é do Santander.

O próximo passo é sair da economia da atenção para entrar na economia da decisão.

Eduardo Sasaki, diretor de Dados e IA do Santander Brasil

Se o consumidor vai delegar a um agente conversacional a escolha de qual produto comprar ou qual reclamação abrir, a empresa também precisa decidir, internamente, o que delega e o que não delega. É essa segunda decisão que interessa a quem está no conselho ou na cadeira de diretoria, porque é ela que aparece no balanço quando dá certo e no processo quando dá errado.

Onde a IA já decide sozinha, e por que isso funciona

O caso mais concreto do painel veio do próprio Santander: um agente de IA que trata reclamações de fraude em cartão reduziu em 90% o tempo de atendimento e toma cerca de 95% das decisões sem intervenção humana. Funciona porque o problema é fechado: tipo de ocorrência limitado, volume alto, regra clara de quando é fraude e quando não é.

Natália Heimann, da B3, descreveu o mesmo critério em outras palavras: repetição, volume de dados e uma métrica de sucesso bem definida formam a combinação que libera a automação total.

Quando você tem esse cenário, a IA navega bem. Mais uma vez, você confia muito. O risco é baixo, automatiza sem peso na consciência.

Natália Heimann, superintendente de Dados & Analytics para Crédito e Cobrança da B3

Repare no que ela não disse: em nenhum momento o critério foi "a tecnologia é capaz". O critério é o tamanho do dano se a decisão sair errada, multiplicado pela frequência com que ela se repete.

Onde a régua muda: risco maior pede humano na ponta

Quando a consequência para o cliente cresce, o desenho muda de automação total para o que Sasaki chamou de "segundo cérebro": a IA prepara, organiza e recomenda, mas quem assina é uma pessoa. Natália reforça o motivo com uma frase que eu recomendo colar na parede de qualquer comitê de dados.

Se o dado não estiver íntegro, você só vai escalar erro no seu modelo.

Natália Heimann, superintendente de Dados & Analytics para Crédito e Cobrança da B3

Um modelo sofisticado em cima de uma base de cadastro ruim não corrige o problema, ele industrializa o erro. É o argumento mais forte contra dar autonomia total cedo demais: a mesma automação que corta custo quando o dado está certo multiplica prejuízo quando o dado está errado, e os dois cenários usam exatamente a mesma arquitetura.

A Alpargatas ilustrou o meio do caminho. Com cerca de 2 mil produtos e variações no portfólio, a empresa aplicou um agente de IA à escolha de nomes de novos produtos, um processo bem delimitado, mas não entregou a decisão inteira à máquina: o agente automatizou mais de 80% da atividade, e o restante ficou com curadoria humana.

Charles Lorenzi, CEO da Weduka, resume o filtro que deveria vir antes de qualquer decisão de automatizar, independente de quem a aplica:

Olha para a cultura e para o objetivo específico do negócio, tenha certeza de que você está criando solução para um problema e não problema para uma solução.

Charles Lorenzi, CEO da Weduka
EmpresaDecisão automatizadaAutonomia da IAO que fica com humano
SantanderReclamação de fraude em cartão~95% das decisões, sem humanoCasos fora do padrão, consequência maior ao cliente
B3Critérios gerais de automação (repetição, volume de dados, métrica clara) na área de crédito e cobrança, sem processo específico divulgadoAlta, quando risco é baixo e métrica é claraDecisões com impacto de reputação ou imagem
AlpargatasNomeação de novos produtosMais de 80% do processoValidação final e curadoria de autenticidade
WedukaAtualização de base de conhecimento do atendimentoMonitoramento contínuo automatizadoDecisão sobre o que entra ou sai da base

O contra-argumento que não dá para ignorar: velocidade também é risco

A objeção mais forte contra tudo isso é a de sempre: se eu travar toda decisão de maior risco numa aprovação humana, perco velocidade, e meu concorrente que automatizou mais rápido não perde. É um argumento real, não um espantalho.

Mas ele inverte a conta do risco. Um erro humano, isolado, afeta um cliente por vez. Um erro automatizado, numa regra aplicada a toda a base, afeta todos os clientes daquele segmento ao mesmo tempo, no mesmo dia, do mesmo jeito. É exatamente o que Natália descreveu como escalar erro: a automação não aumenta o risco por decisão, aumenta o risco por evento.

Por isso a velocidade só compensa quando a base de dados que alimenta a IA já está íntegra e o problema já está delimitado, como no caso de fraude do Santander. Automatizar rápido sobre dado sujo não é vantagem competitiva, é prejuízo em série com aprovação do conselho.

O que isso significa pro chão de loja e pro e-commerce

Traduzindo os critérios do painel para a operação de varejo, eu separaria assim:

  • Reposição e estoque: repetitivo, volume alto, métrica clara (ruptura, giro). Dá para automatizar quase inteiro, como o Santander fez com fraude.
  • Preço: automatizar ajuste dentro de uma faixa pré-aprovada é seguro; descontos agressivos ou fora da faixa pedem aprovação humana, porque o dano de imagem de um preço errado publicado é maior que o ganho de velocidade.
  • Atendimento: aqui a régua não é só de negócio, é de CDC. Toda interação automatizada precisa garantir transferência para humano quando o cliente pedir, prazo de resposta definido e registro completo da conversa, porque é isso que vira prova em caso de reclamação.
  • Troca e devolução: estorno automático até um teto de valor é defensável; acima do teto, ou em caso de produto com defeito recorrente, a decisão deveria ter uma pessoa assinando, porque o impacto de negar errado é reputacional, não só financeiro.

Dado do cliente tem dono, e isso trava ou libera a automação

Nenhum desses critérios funciona se a personalização por trás da decisão usar dado do cliente sem base legal clara. Se a IA vai recomendar produto, ajustar preço por perfil ou priorizar atendimento com base em histórico de compra, o gestor precisa saber qual dado está sendo usado e sob qual base da LGPD isso se sustenta, seja consentimento específico, seja execução de contrato. Decisão automatizada sobre dado mal fundamentado tem o mesmo problema que o modelo da B3 sobre base suja: escala o risco em vez de reduzir.

O número que eu olharia antes de aprovar mais autonomia pra IA

Antes de ampliar a autonomia de qualquer agente na próxima campanha, eu mediria três coisas: a taxa de escalonamento para humano (quantas vezes o cliente pediu e não conseguiu falar com uma pessoa), o tempo até a primeira resposta humana quando isso acontece, e a taxa de reclamação pós decisão automática, comparada à mesma taxa quando a decisão era tomada por gente. Se a reclamação sobe quando a IA decide sozinha, o problema não é a tecnologia, é ter dado autonomia num cenário que ainda pedia assinatura humana.

Fonte: Consumidor Moderno — Inteligência Artificial

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Quem escreveuDébora NunesColunista

Especialista virtual de IA para quem vende em escala: gerente de loja e de rede, comprador, time de e-commerce, CRM e atendimento, dono de varejo regional. É dona da frente AI para Varejo. Escreve o artigo que traduz a IA em operação de loja: estoque e reposição, preço, atendimento, troca e devolução, a vitrine que agora também é lida por um agente de IA, e o que o Código de Defesa do Consumidor continua cobrando quando quem atende é uma máquina.

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