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Estudo liga IA a mais vagas e salários no contencioso de massa, mas tem patrocinador interessado

Artigo assinado pelo CEO de uma legaltech brasileira defende que a automação não reduziu o número de advogados no contencioso de massa, e sim aumentou vagas e salários. Os números vêm de um estudo que a própria empresa patrocinou.

Bruno CarvalhoColunista

· 6 min de leitura

Este artigo foi escrito por Bruno Carvalho. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

Um estudo que também é propaganda

O artigo publicado no Migalhas foi assinado por Mateus Costa-Ribeiro, advogado formado pela Universidade de Brasília e fundador da Enter, uma legaltech que vende ferramentas de inteligência artificial para escritórios de contencioso. O texto vem marcado como conteúdo patrocinado. Isso não invalida os dados citados, mas muda a forma de ler: quem conta a história também vende o produto que a história elogia.

O estudo mencionado foi feito, segundo o artigo, por "uma das maiores consultorias estratégicas do mundo", sem citar o nome da consultoria nem link para o relatório completo. Os números de salário mais específicos (19%, 14% e 43% a mais) não vêm desse estudo terceiro: são comparações internas entre clientes da própria Enter e escritórios que não usam a ferramenta, segundo o texto. Para o advogado que decide se vale investir em IA no próprio escritório, essa distinção importa na hora de pesar a credibilidade de cada número.

O que é contencioso de massa, em português

Contencioso de massa é o apelido para processos repetitivos em grande volume: ações de consumidor contra bancos, seguradoras, operadoras de telefonia e companhias aéreas, por exemplo, onde o mesmo tipo de causa se repete milhares de vezes. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) citados no artigo, o volume de processos no Brasil crescia de 2% a 3% ao ano desde 2009 e saltou para 8% ao ano em 2022, o mesmo ano em que o ChatGPT chegou ao público. Para processos cíveis de grandes empresas, o crescimento anual chegou a 16%.

O artigo descreve esse cenário com a metáfora da Hidra de Lerna: a cada processo encerrado, nascem outros dois. A leitura prática para quem advoga nessa área é que o volume não vai parar de crescer, e a aposta do autor é que só a automação sustenta esse ritmo sem explodir o quadro de pessoal.

Quem carrega o peso disso hoje

Segundo o estudo citado, profissionais do contencioso de massa são cerca de 2% do 1,5 milhão de advogados registrados no país, mas respondem por mais de 70% do volume total de processos das maiores empresas brasileiras. É um grupo pequeno fazendo um trabalho desproporcional, historicamente com prazos apertados e pouco espaço para analisar cada caso.

Um dado do estudo merece atenção redobrada de quem fiscaliza a profissão: 45% dos colaboradores desses escritórios não foram aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e não têm registro na entidade, muitas vezes exercendo atividade de cunho advocatício fora da regulação da categoria. O artigo cita a revista Exame, que em 2011 descreveu esse modelo de negócio:

Tem jeitão de call center, linha de produção, custos baixíssimos: é o escritório de advocacia mais inusitado do país.

Revista Exame, em reportagem de 2011

Os números de salário que o artigo apresenta

A tese central do texto é que a IA não substitui o advogado do contencioso de massa, ela valoriza quem sabe operá-la. Entre 2018 e 2025, segundo o estudo, o número de advogados nesse universo cresceu 3% ao ano, movimento também observado nos Estados Unidos, no Reino Unido (3% ao ano) e na França (2% ao ano desde 2019).

Para a remuneração, os números vêm da base de clientes da própria Enter, comparados a escritórios que não usam a ferramenta:

PosiçãoAumento salarial relatado
Estagiário19%
Advogado júnior14%
Advogado pleno43%

São números de uma empresa falando do próprio produto, sem auditoria externa divulgada junto ao artigo. Isso não os torna falsos, mas pede cautela antes de tratá-los como média de mercado.

O exemplo concreto: ler laudo meteorológico para defender companhia aérea

O artigo traz um caso de uso específico que vale entender, porque mostra o tipo de tarefa que a IA consegue assumir hoje. Segundo a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (ABEAR), citada no texto, o Brasil concentra cerca de 3% do tráfego aéreo mundial, mas responde por 98,5% dos processos judiciais contra companhias aéreas no mundo todo.

A Enter treinou um modelo para ler códigos METAR, o formato técnico usado por meteorologistas e pilotos para descrever condições de voo. No exemplo citado, o sistema identifica que uma chuva de granizo impediu a decolagem de um voo entre Congonhas e o Santos Dumont por motivo de segurança, informação que normalmente exigiria consulta a um especialista em aeronáutica. Cabe ao advogado decidir se usa esse dado na contestação, não ao sistema. Segundo o artigo, a ferramenta já é usada por 100% das grandes companhias aéreas brasileiras.

O aviso que a própria fonte deixou de fora do texto

O Migalhas publicou, logo abaixo do artigo, um link para outra matéria: a seccional de São Paulo da OAB moveu ação na Justiça contra a Enter por uso de inteligência artificial em atividades jurídicas. O artigo analisado aqui não comenta esse processo, embora ele envolva diretamente a legitimidade do modelo de negócio que o texto defende.

Isso é relevante porque a OAB é quem define, pela Lei 8.906/1994 (Estatuto da Advocacia), o que conta como atividade privativa de advogado. Uma ferramenta de IA que analisa provas e sugere teses pode esbarrar nessa fronteira, e é exatamente esse ponto que está sob disputa judicial. Antes de contratar qualquer plataforma de automação jurídica, vale perguntar ao fornecedor se ele enfrenta processos semelhantes e como responde a eles.

O que o STJ já decidiu sobre IA no processo

O artigo cita que a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) reconheceu, segundo o texto no ano anterior à publicação, o direito da parte autora de usar inteligência artificial para acessar a Justiça. O raciocínio, como aponta o autor, vale nos dois sentidos: se o autor da ação pode usar IA para construir sua petição, a parte ré tem o mesmo direito de defesa. O artigo não traz o número do acórdão, então vale conferir diretamente no site do STJ antes de citar essa decisão em petição.

O que muda na prática para quem advoga no contencioso de massa

Daqui saem três pontos de atenção concretos para quem decide adotar IA no dia a dia do escritório:

  1. Verifique o registro de quem revisa: se 45% da equipe de um escritório de massa não tem OAB, a revisão final de qualquer peça gerada por IA precisa passar por um advogado registrado antes de ir para o processo.
  2. Confira a jurisprudência citada: ferramenta de IA erra e inventa precedente. O que a IA rascunha, uma pessoa revisa, sempre, antes de protocolar.
  3. Não envie documento de cliente sem contrato: antes de subir qualquer prova, laudo ou dado de processo real para uma plataforma de IA, confirme por escrito as cláusulas de confidencialidade e o tratamento de dados pessoais previsto na Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018), e guarde essa confirmação no arquivo do caso.

O argumento central do artigo, que a IA aumenta vagas em vez de eliminar postos no contencioso de massa, encontra respaldo em dados públicos do CNJ sobre o crescimento do volume processual. Já os números de salário e o caso de uso do METAR vêm do fornecedor que lucra com a venda dessa narrativa, e a disputa com a OAB/SP mostra que a fronteira entre automação e atividade privativa de advogado ainda está sendo definida nos tribunais, não fechada.

Fonte: Migalhas

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Quem escreveuBruno CarvalhoColunista

Escreve para quem vive de texto, planilha e prazo (advogado, contador, RH, administrativo) e para quem decide onde a inteligência artificial entra na empresa: gestores e diretores. Traduz regra, risco e custo em reais e em dias, e repete em todo guia que o que a IA rascunha uma pessoa revisa.

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