Pesquisa da AASP mostra que advogado usa mais IA, mas não abre mão da revisão humana
Levantamento da AASP com 276 advogados mostra que 78,3% aumentaram o uso de IA nos últimos seis meses. O dado interessante não é a adoção: é o que a categoria continua fazendo manualmente.
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Este artigo foi escrito por Bruno Carvalho. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.
Levantamento da AASP com 276 advogados mostra que 78,3% aumentaram o uso de IA nos últimos seis meses. O dado interessante não é a adoção: é o que a categoria continua fazendo manualmente.
Uma pesquisa da AASP (Associação dos Advogados de São Paulo) divulgada em 16 de outubro de 2026, durante o evento "Diálogos: IA e Advocacia", traz um retrato direto de como a advocacia brasileira está lidando com inteligência artificial no dia a dia. Dos 276 advogados que responderam ao levantamento, 78,3% relataram aumento no uso de IA no trabalho jurídico nos últimos seis meses.
O número confirma o que já era esperado: a ferramenta entrou no escritório. A parte que merece atenção do advogado que lê isso é outra: segundo a reportagem do Valor Econômico que divulgou os dados, a categoria reconhece o potencial da tecnologia, mas mantém cautela explícita quanto a três pontos específicos, confiabilidade das ferramentas, segurança das informações e responsabilidade pelas decisões.
Esses três pontos não são genéricos. Eles descrevem exatamente onde fica a fronteira entre o que a IA pode fazer sozinha e o que continua exigindo um profissional humano assinando embaixo. Vale entender cada um com calma, porque é aí que mora a diferença entre usar IA para ganhar tempo e usar IA para criar um problema ético ou disciplinar.
Onde a IA já entrou na rotina do escritório
Na prática do dia a dia, mesmo sem detalhamento de ferramentas específicas na pesquisa, os usos mais comuns entre escritórios brasileiros seguem um padrão parecido: rascunho de petição a partir de um modelo anterior, resumo de processos longos antes de uma audiência, resposta de e-mail para cliente, triagem de documentos num processo de due diligence e pesquisa inicial de jurisprudência para orientar a tese.
Nenhuma dessas tarefas, isoladamente, é o trabalho jurídico em si. São etapas de apoio. O trabalho jurídico (a leitura do caso concreto, a estratégia processual, a assinatura da peça) continua sendo decisão do advogado. É esse recorte, aliás, que explica por que a pesquisa da AASP registra alta adoção e cautela ao mesmo tempo: a ferramenta ocupou o espaço de apoio, não o espaço de decisão.
Por que a revisão humana não é opcional
O ponto mais sensível de IA generativa aplicada ao direito é a alucinação: o modelo pode gerar jurisprudência, número de processo ou citação de lei que simplesmente não existem, com a mesma confiança de quando acerta. É esse risco, de um dado inventado entrar numa peça sem que ninguém perceba, que justifica a cautela quanto à confiabilidade das ferramentas apontada pela pesquisa da AASP.
Isso muda a forma como o rascunho de IA deve ser tratado no escritório. O que a IA rascunha, uma pessoa revisa, sempre, e isso vale para toda peça, parecer ou minuta de contrato que passou por uma ferramenta antes de chegar ao cliente ou ao processo. Na prática, revisar significa conferir cada citação de lei, súmula ou acórdão na fonte oficial (Jusbrasil, sites dos tribunais, Planalto), não apenas ler o texto em busca de erro de português.
Em resumo: a IA pode acelerar a primeira versão de uma peça, mas a responsabilidade técnica e ética pela peça final continua sendo exclusivamente do advogado que assina, independentemente de qual ferramenta gerou o rascunho.
O dado de cliente exige contrato antes de ir para qualquer ferramenta
O segundo ponto de cautela citado na pesquisa, segurança das informações, tem base legal concreta. A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709, de 14 de agosto de 2018) trata o conteúdo de um processo judicial, muitas vezes, como dado pessoal sensível: endereço, CPF, histórico de saúde num processo trabalhista, situação financeira num processo de família. Colar esse conteúdo numa ferramenta de IA genérica, sem verificar o que acontece com o dado depois, é expor o cliente a um risco que o escritório não tem autorização para correr.
Antes de usar qualquer ferramenta de IA com dados reais de um cliente, o escritório deveria conferir três coisas:
- Se existe contrato de processamento de dados (DPA) assinado entre o escritório e o fornecedor da ferramenta, não apenas um termo de uso genérico de site;
- Se a política do fornecedor garante que o conteúdo inserido não é usado para treinar o modelo de outros clientes;
- Se há como apagar o dado depois, caso o cliente peça (direito previsto na própria LGPD).
Sem essas três respostas, o caminho mais seguro é anonimizar o conteúdo antes de colar na ferramenta: trocar nome, CPF e número de processo por identificadores genéricos, e só reinserir o dado real na versão final revisada manualmente.
O sigilo profissional não muda porque a ferramenta é nova
O terceiro ponto, responsabilidade pelas decisões, remete direto ao Estatuto da Advocacia e da OAB (Lei 8.906, de 4 de julho de 1994), que trata o sigilo profissional como dever indisponível do advogado. Usar uma ferramenta de IA não transfere essa responsabilidade para o fornecedor da tecnologia. Se um dado de cliente vazar porque foi colado numa ferramenta sem as garantias contratuais adequadas, a infração disciplinar recai sobre o advogado, não sobre a empresa que fez a IA.
É por isso que a cautela registrada na pesquisa da AASP não deveria ser lida como resistência à tecnologia. Ela é, na prática, o reflexo de uma categoria que já entendeu onde a IA ajuda (velocidade na primeira versão de um texto) e onde ela não pode decidir sozinha (o que vai na peça final, com o nome do advogado embaixo).
O que muda na prática do escritório
Para quem ainda está decidindo como incorporar IA na rotina, o recorte da pesquisa sugere um caminho razoável: usar a ferramenta para ganhar tempo nas tarefas repetitivas (resumo, rascunho, triagem de documento), e manter um protocolo fixo de revisão antes de qualquer peça sair do escritório. Esse protocolo não precisa ser complexo. Pode ser uma checklist simples afixada ao lado do computador: conferir toda citação de lei e jurisprudência na fonte oficial, verificar se há dado pessoal de cliente no texto colado na ferramenta, e confirmar se existe contrato com o fornecedor antes de repetir o uso com dados reais.
A pesquisa da AASP não resolve esse debate, e também não é esse o papel dela. O que ela faz é confirmar, com número, algo que já estava acontecendo nos bastidores dos escritórios brasileiros: a IA entrou, mas a assinatura embaixo da peça continua sendo humana.
Fonte: Valor Econômico, "Advocacia usa mais IA, mas mantém revisão humana, diz pesquisa da AASP" (https://valor.globo.com/legislacao/noticia/2026/10/17/advocacia-usa-mais-ia-mas-mantem-revisao-humana-diz-pesquisa-da-aasp.ghtml).
Fonte: Valor Econômico

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