AI Brasil
Escritório e direito

ADVBOX compra LawX e estreia IA com 20 agentes para redigir petições

A ADVBOX pagou cerca de R$ 1 milhão pelos ativos da legaltech LawX e lançou uma plataforma com 20 agentes de inteligência artificial especializados em áreas do Direito. Veja o que isso muda na rotina do escritório e os cuidados antes de usar.

Bruno CarvalhoColunista

· 6 min de leitura

Este artigo foi escrito por Bruno Carvalho. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.

A ADVBOX, empresa catarinense que vende software de gestão para escritórios de advocacia, anunciou em outubro de 2026 a compra dos ativos da LawX, legaltech especializada em inteligência artificial para produção de documentos jurídicos. O valor do negócio, segundo a Exame, ficou em torno de R$ 1 milhão. Com a aquisição, a ADVBOX incorporou tecnologia, propriedade intelectual, marca, parte da carteira de clientes e programadores da LawX para lançar uma plataforma de IA voltada à redação e revisão de petições.

A empresa encerrou 2025 com receita de R$ 39 milhões e projeta R$ 58 milhões em 2026. A aposta é que a nova frente de IA ajude a companhia a passar de R$ 100 milhões em faturamento a partir de 2027. Para quem advoga, o número que importa não é esse: é entender o que a ferramenta faz, onde ela ajuda de verdade e que cuidado redobrar antes de colar o caso de um cliente numa tela nova.

O que a ADVBOX comprou e por que isso faz sentido

Até esta aquisição, o portfólio da ADVBOX cobria gestão de processos, tarefas, produtividade e finanças do escritório, o que o fundador Eduardo Koetz chama de seis das sete frentes que considera necessárias para administrar uma banca. Faltava a sétima: a produção jurídica em si, ou seja, a elaboração do documento que sai para o cliente ou para o processo.

A companhia já desenvolvia essa frente internamente, mas faltava equipe de programação para acelerar o projeto. Comprar a LawX resolveu dois problemas de uma vez: trouxe a tecnologia pronta e o time que a construiu. O resultado é um produto com 20 agentes de inteligência artificial, cada um treinado para uma área específica do Direito (trabalhista, cível, tributário e assim por diante).

Criamos uma base de dados própria, que atualizamos diretamente, para que nossa IA seja muito superior a ferramentas como Claude e GPT na área jurídica.

Eduardo Koetz, fundador da ADVBOX

Essa é uma promessa comum entre legaltechs: treinar ou ajustar um sistema sobre uma base de jurisprudência e modelos de petição específica do Direito brasileiro costuma render respostas mais aderentes do que pedir a mesma tarefa a um assistente de propósito geral. Mas a declaração de Koetz é posicionamento comercial, não um teste independente, e nenhuma fonte pública até agora comparou a acurácia da ferramenta da ADVBOX com a de modelos generalistas em petições reais.

Como os agentes entram na rotina do escritório

Na prática anunciada pela empresa, a ferramenta funciona dentro do mesmo ecossistema de gestão que a ADVBOX já vende: o advogado abre um caso cadastrado no sistema e aciona o agente da área correspondente para gerar uma minuta de petição, com base nos dados do processo já registrados na plataforma.

Isso muda o fluxo de trabalho em pontos concretos:

  • A primeira versão de uma petição simples deixa de começar em branco: o agente entrega um rascunho a partir de modelos e da jurisprudência da base de dados da empresa.
  • Tarefas repetitivas, como petições de rotina em volume alto (cobrança, trabalhista padrão, recursos simples), ganham um ponto de partida mais rápido.
  • O escritório que já usa a ADVBOX para gestão não precisa migrar dados para outro sistema: o agente trabalha sobre o que já está cadastrado.

A ADVBOX começou a liberar a ferramenta para clientes que já usam a plataforma principal, numa fase de avaliação, antes de vender o produto separadamente para quem ainda não é cliente. É um caminho comum em lançamento de produto: usar a base instalada como piloto e porta de entrada.

O que a ferramenta substitui, e o que continua sendo trabalho seu

O agente de IA entrega uma minuta. Ele não assina a petição, não responde perante a OAB pelo conteúdo e não conhece as particularidades do caso que não estejam digitadas no sistema. A frase que vale para qualquer ferramenta de geração de texto jurídico é simples: o que a IA rascunha, o advogado revisa, linha por linha, antes de protocolar.

Isso importa porque o risco de alucinação, quando um sistema de IA generativa inventa jurisprudência, número de processo ou dispositivo legal que não existe, já gerou casos de advogados punidos no Brasil e no exterior por citar precedente fictício em peça protocolada. Uma base de dados própria, como a que a ADVBOX diz ter construído, reduz esse risco em teoria, mas não elimina a obrigação de conferir cada citação antes de assinar.

O que o produto não resolve é a estratégia do caso: a tese a sustentar, a leitura do juízo, a negociação com a parte contrária. Isso continua sendo trabalho do advogado, e é justamente o que separa petição entregue por software de petição que ganha a causa.

O cuidado que a lei exige antes de colar o caso do cliente

Todo dado de cliente que entra numa ferramenta de IA externa precisa de contrato que diga, por escrito, onde esse dado é armazenado, se é usado para treinar o modelo de outros clientes e por quanto tempo fica retido. Isso vale tanto para a nova ferramenta da ADVBOX quanto para qualquer assistente de IA generativa que o escritório já use.

Três obrigações legais cercam esse uso no Brasil:

  1. A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018) exige base legal, finalidade definida e segurança no tratamento de dado pessoal, e dado processual costuma incluir dado pessoal de clientes e da parte contrária.
  2. O Estatuto da Advocacia (Lei nº 8.906/1994), no art. 34, inciso VII, trata a violação de sigilo profissional como infração disciplinar, e o Código de Ética e Disciplina da OAB reforça esse dever no art. 25.
  3. Ainda não existe um provimento específico do Conselho Federal da OAB regulando o uso de IA generativa pelo advogado: a obrigação hoje decorre dessas normas gerais de sigilo e proteção de dados, não de uma regra dedicada ao tema.

Antes de liberar a equipe para usar qualquer agente de IA com dado real de cliente, vale conferir três coisas no contrato ou nos termos de uso do fornecedor: se há cláusula de confidencialidade específica para dado processual, se o fornecedor garante que o conteúdo inserido não treina modelos de terceiros, e se há como excluir o dado armazenado quando o caso termina.

Vale a pena adotar agora?

Para escritórios que já usam a ADVBOX para gestão, testar o novo módulo custa pouco: a empresa está oferecendo a ferramenta à base existente antes de cobrar por ela separadamente, segundo o relato à Exame. O risco baixo e o fluxo integrado tornam o teste razoável, desde que a revisão humana da minuta continue obrigatória.

Para quem não usa a plataforma e cogita contratar só pelo módulo de IA, a conta muda: entra a curva de aprendizado de um sistema novo e a dependência de uma legaltech que ainda está consolidando o produto recém-comprado. Koetz reconhece que a maior barreira do setor não é tecnológica, é cultural, a resistência do advogado em dedicar tempo a aprender a ferramenta.

A ADVBOX também planeja levar o produto a Portugal e a outros países da América Latina a partir de 2027, o que exige adaptar os agentes a legislação, jurisprudência e regras de acesso a dado processual de cada jurisdição, um trabalho bem maior do que traduzir a interface. Até lá, o produto segue restrito ao Direito brasileiro, e é nesse terreno que vale avaliar se ele entrega o que promete.

Fonte: Exame

Compartilhar
Quem escreveuBruno CarvalhoColunista

Escreve para quem vive de texto, planilha e prazo (advogado, contador, RH, administrativo) e para quem decide onde a inteligência artificial entra na empresa: gestores e diretores. Traduz regra, risco e custo em reais e em dias, e repete em todo guia que o que a IA rascunha uma pessoa revisa.

Leia também

Newsletter AI Brasil

A IA da semana, para a sua profissão

Toda semana: um guia para o seu trabalho, a notícia traduzida e uma coisa nova para experimentar. Gratuita, sem spam.

Você é… (opcional)