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Telecirurgia do SUS já prova seu valor, mas a IA de apoio na cirurgia ainda não passou no teste clínico

Cirurgião do aparelho digestivo compara o que a telecirurgia robótica já provou no SUS com o que a IA de orientação intraoperatória ainda precisa validar antes de entrar na sala de cirurgia.

Helena RibeiroColunista

· 5 min de leitura

Este artigo foi escrito por Helena Ribeiro. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

Cirurgia sempre foi uma profissão que aprende a desconfiar antes de confiar. Bisturi novo, sutura nova, técnica laparoscópica: tudo isso passou por anos de validação antes de virar rotina. Com a inteligência artificial na sala de cirurgia, o mesmo cuidado precisa valer, só que o ritmo das novidades é outro.

Para situar o debate, vale citar diretamente o que levantou o cirurgião Lucas Nacif, especialista em cirurgia do aparelho digestivo pelo Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva (CBCD) e em cirurgia geral pelo Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC), em artigo publicado no Medicina S/A:

Inovar não significa adotar tudo o que surge, mas saber identificar o que realmente contribui para cuidar melhor.

Lucas Nacif, cirurgião do aparelho digestivo, especialista pelo CBC e CBCD

Concordo com o diagnóstico. E acho que dá para ser mais específico sobre onde a linha passa entre o que já pode entrar na sua sala de cirurgia e o que ainda precisa de mais prova.

A telecirurgia do SUS já mostrou o que funciona

Em junho de 2026, o Hospital de Amor realizou pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a primeira telecirurgia robótica de longa distância do país, conectando uma equipe em Porto Velho (RO) a um cirurgião em Barretos (SP), cerca de 2.700 quilômetros de distância. O procedimento funcionou porque reuniu três ingredientes ao mesmo tempo: conectividade estável, uma equipe local preparada para agir se algo saísse do previsto, e um especialista comandando a operação à distância.

Isso é tecnologia que amplia o cuidado sem tirar o médico de cena. O robô não decide nada sozinho, só estende o alcance de um cirurgião que já sabe operar. Para quem atende numa cidade sem especialista disponível, essa combinação pode ser a diferença entre esperar meses por vaga em outro estado e ser operado por um nome de referência sem sair da própria região.

O ponto que eu reforçaria para quem pensa em levar isso ao próprio serviço: telecirurgia não dispensa equipe, dispensa deslocamento. Antes de aceitar um procedimento remoto, confirme três coisas com o hospital parceiro: quem assume o paciente se a conexão cair, que estrutura cirúrgica convencional está de prontidão, e qual protocolo de telemedicina a instituição segue. As normas do Conselho Federal de Medicina sobre telemedicina já tratam de exigências desse tipo para atos mediados por tecnologia à distância, e vale conferir a regulamentação vigente antes de assinar qualquer parceria.

O volume de pesquisa sobre IA cirúrgica não é aprovação clínica

Enquanto a telecirurgia resolve um problema de distância com o médico ainda no comando, a inteligência artificial que promete orientar o cirurgião durante o procedimento tenta resolver um problema de interpretação. E aí a régua muda.

Uma revisão publicada em 2026 na revista Heliyon reuniu 208 estudos sobre uso de inteligência artificial na cirurgia visceral, com aplicações que vão da avaliação pré-operatória ao reconhecimento de estruturas durante o procedimento e ao acompanhamento de complicações. É volume de pesquisa real, mas volume de publicação não é o mesmo que ferramenta pronta para entrar no seu centro cirúrgico.

Uma revisão sistemática publicada também em 2026 na npj Digital Surgery foi direto ao ponto fraco: faltam métodos padronizados para validar ferramentas de IA voltadas à orientação durante cirurgias robóticas, e a maioria ainda não demonstrou, em condições clínicas reais, que o uso melhora o desfecho do paciente. Em outras palavras: um sistema pode acertar o reconhecimento de uma estrutura anatômica numa base de imagens e, mesmo assim, nunca ter sido testado no tipo de cirurgia que você faz, nos pacientes que você opera, nas intercorrências que você já viu.

O que perguntar antes de aceitar uma ferramenta de IA na sua sala

Antes de incorporar qualquer sistema de apoio intraoperatório, eu faria estas perguntas ao fornecedor, por escrito:

  • Em que tipo de cirurgia e em qual população de pacientes a ferramenta foi validada?
  • O estudo mediu desfecho clínico (complicação, reoperação, mortalidade) ou só desempenho técnico do algoritmo (acerto de imagem, tempo de resposta)?
  • Como o sistema se comporta diante de anatomia atípica, pacientes obesos ou cirurgias previamente operadas, casos que costumam ficar de fora das bases de treinamento?
  • Existe registro na Anvisa como dispositivo médico, e qual a classe de risco atribuída?
  • Os vídeos e imagens do procedimento usados para calibrar ou alimentar o sistema são anonimizados antes de sair do hospital, conforme exige a legislação brasileira de proteção de dados?
  • Quem responde se a orientação da IA contribuir para um erro durante o ato cirúrgico?

Se o fornecedor não tiver resposta clara para as seis, a ferramenta ainda está em fase de pesquisa, não de uso clínico rotineiro. Isso não é recusa à inovação, é o mesmo padrão que qualquer medicamento ou implante novo precisa cumprir antes de chegar à prateleira.

O contra-argumento que não posso ignorar

Existe uma objeção séria a essa cautela: enquanto se espera validação perfeita, o paciente em região sem acesso a especialista continua sem alternativa, e um sistema de apoio ainda imperfeito pode valer mais que nenhum apoio. É um argumento real, não um espantalho.

Mas ele confunde dois tipos de risco. Na telecirurgia, o erro mais provável é a falha de conexão ou de infraestrutura, algo que se mitiga com equipe local e protocolo, e o cirurgião continua sendo quem decide cada movimento. Numa IA que interpreta imagem ou sugere conduta durante o procedimento, o erro pode ser silencioso: o sistema erra e ninguém percebe até o desfecho ruim, porque o próprio objetivo da ferramenta é substituir parte do julgamento humano naquele instante. É exatamente esse tipo de erro que a falta de padronização, apontada pela revisão da npj Digital Surgery, ainda não permite prever com segurança.

Minha posição

Uso telecirurgia e robótica como o que são: extensão da mão e do alcance do cirurgião, com evidência concreta de que funcionam quando a estrutura ao redor é séria, como mostrou o caso Porto Velho-Barretos. Trato IA de orientação intraoperatória como tecnologia em teste, útil para acompanhar e cobrar validação, não para confiar o julgamento de uma cirurgia a um sistema que ainda não provou, em pacientes como os meus, que melhora o desfecho.

A diferença entre as duas não é entusiasmo ou resistência à tecnologia. É perguntar, caso a caso, se o que está sendo oferecido já respondeu à pergunta que importa: isso muda, de forma comprovada, a segurança do paciente que está na sua mesa de cirurgia hoje?

Fonte: Medicina S/A

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Quem escreveuHelena RibeiroColunista

Escreve para quem cuida de gente: médico, dentista, enfermeiro, fisioterapeuta, psicólogo, nutricionista, veterinário. Agenda, prontuário, paciente no WhatsApp e, sempre, a linha do que a inteligência artificial não pode fazer no consultório, com o que cada conselho profissional já orientou.

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