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Recrutamento com IA divide especialistas entre desconfiança e governança

Um psicólogo organizacional defende recuar da automação e voltar a confiar em redes pessoais. Uma executiva de RH defende manter a IA, mas com governança e regras claras. Os dois concordam só até certo ponto.

Redação AI BrasilRedação

· 5 min de leitura

Este artigo foi escrito por Redação AI Brasil. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

O problema que a IA prometia resolver

Durante anos, a promessa era simples: a inteligência artificial (IA) tornaria o recrutamento mais rápido, mais justo e menos dependente do faro humano. Segundo um relatório do Fórum Econômico Mundial citado pelo psicólogo organizacional Tomas Chamorro-Premuzic, cerca de 90% das empresas já usam algum sistema automatizado ou algorítmico para filtrar, classificar ou excluir candidatos (SAPO, 3 de fevereiro de 2026). Nomes como Amazon, Unilever, Goldman Sachs, Siemens, Walmart e Chipotle adotaram essas ferramentas para lidar com grandes volumes de candidaturas.

O resultado, descrito tanto por Chamorro-Premuzic quanto pela executiva de RH Giovanna Gregori Pinto em artigo publicado no Segs (10 de fevereiro de 2026), não foi a meritocracia prometida. Os dois concordam que a tecnologia, sozinha, não resolveu o problema que deveria resolver e que o julgamento humano continua indispensável. A divergência começa no diagnóstico de por que isso aconteceu e no que fazer a partir daqui.

Duas respostas para a mesma crise

Chamorro-Premuzic descreve o recrutamento atual como uma corrida armamentista: empresas automatizam a triagem enquanto candidatos usam IA generativa para produzir currículos, cartas de motivação e respostas de entrevista impecáveis. Centenas de vagas podem ser disputadas por um único candidato com ajuda de algoritmos, e nenhum lado confia mais nos sinais que recebe. A consequência, segundo ele, é um recuo das empresas para métodos antigos.

Recrutamento medieval, onde o capital social volta a pesar mais do que o mérito.

Tomas Chamorro-Premuzic, psicólogo organizacional, chief science officer da Russell Reynolds Associates

Para Chamorro-Premuzic, a IA só funciona quando impõe estrutura e consistência, como entrevistas padronizadas, e reduz ruído, não quando tenta parecer mais inteligente que o processo inteiro. Ele cita um estudo de campo de Stanford e da USC em que candidatos filtrados por entrevistas estruturadas conduzidas por IA tiveram 20% mais chance de avançar para fases com recrutadores humanos, não porque o sistema identificou talento, mas porque eliminou respostas irrelevantes logo no início.

Giovanna Gregori Pinto, fundadora da People Leap e ex-Head de People Tech do iFood, parte de outro ponto: o problema não é usar IA, é usá-la sem governança. Ela lembra que o AI Act da União Europeia já exige transparência e supervisão humana para sistemas usados em recrutamento, e que nos Estados Unidos ações judiciais já questionam ferramentas automatizadas de seleção por decidirem oportunidades profissionais sem explicação clara.

A maturidade não está em usar mais tecnologia, mas em usá-la melhor.

Giovanna Gregori Pinto, executiva de RH e fundadora da People Leap

Para Pinto, o caminho passa por revisar iniciativas em curso, fortalecer a qualidade dos dados, criar estruturas de governança e deixar claro onde a IA apoia a decisão sem substituir o julgamento humano.

Onde a divergência fica clara

Os dois concordam que a IA não deve decidir sozinha quem é contratado. A separação aparece na resposta à pergunta seguinte: o problema é estrutural ou é administrativo?

Para Chamorro-Premuzic, a confiança quebrou porque qualquer sinal digital, currículo, carta, resposta de entrevista, pode ser fabricado em escala por ambos os lados. Nenhuma política de governança resolve isso sozinha, porque o incentivo para enganar o sistema continua existindo enquanto o sistema for puramente digital. Por isso sua saída aposta em reduzir a dependência de sinais manipuláveis e recuperar métodos que a tecnologia não consegue replicar, como entrevistas presenciais e redes de referência pessoal, mesmo reconhecendo que isso reforça desigualdades de capital social.

Pinto não nega o problema de confiança, mas o trata como sintoma de falta de estrutura, não como falha definitiva da tecnologia. Na leitura dela, sistemas que operam como caixa-preta (decisões cujos critérios internos não são visíveis nem explicáveis a quem os usa) são o risco real, e a resposta é institucional: documentar critérios, auditar dados, cumprir regulação como o AI Act e manter pessoas responsáveis pela decisão final. Governança, não retirada da tecnologia, é o eixo da proposta dela.

Essa é a linha que separa os dois caminhos: um aposta que o excesso de automação corroeu a confiança de um jeito que só menos tecnologia e mais contato humano direto recuperam; o outro aposta que mais estrutura, transparência e regulação em torno da mesma tecnologia resolve o que a adoção apressada não resolveu.

O que isso muda na prática

Para quem lidera contratação ou decide onde a IA entra no RH da empresa, as duas visões sugerem ações concretas e, em parte, incompatíveis.

Quem se identifica com o diagnóstico de Chamorro-Premuzic deveria:

  • Tratar resultados de triagem automática como ponto de partida, nunca como veredito, principalmente em etapas onde candidatos podem ter usado IA generativa para produzir respostas;
  • Investir em entrevistas estruturadas conduzidas por humanos, com critérios fixos e comparáveis entre candidatos;
  • Reconstruir canais de referência e indicação pessoal como fonte de sinal confiável, mesmo sabendo que isso pode restringir o alcance do processo a redes já estabelecidas.

Quem se identifica com o diagnóstico de Pinto deveria:

  • Mapear que decisões de recrutamento já são tomadas ou influenciadas por algoritmos na empresa, mesmo as informais, como filtros automáticos de currículo;
  • Documentar os critérios desses sistemas e verificar se atendem a exigências regulatórias que já chegam ao Brasil por influência do AI Act europeu e das disputas judiciais nos Estados Unidos;
  • Criar um ponto de responsabilidade humana explícito para cada decisão automatizada, de forma que nenhuma recusa ou aprovação saia sem alguém capaz de explicá-la.

Nenhuma das duas visões recomenda abandonar completamente a IA no recrutamento nem devolver a ela o poder de decidir sozinha. A diferença está em onde cada uma concentra o esforço: Chamorro-Premuzic pede menos dependência de sinais digitais manipuláveis, Pinto pede mais estrutura em torno deles. A escolha entre reforçar o contato humano direto ou investir em governança algorítmica, ou fazer as duas coisas ao mesmo tempo, é decisão de quem comanda o processo, não da tecnologia.

Fontes: SAPO · Segs

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Quem escreveuRedação AI BrasilRedação

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