A TI colocou a IA na fila e você deixou

O artigo discute os impactos de concentrar projetos de inteligência artificial nas áreas de TI das empresas. O texto argumenta que a lógica de controle e redução de riscos típica da tecnologia pode sufocar criatividade, experimentação e inovação. Também aborda como culturas corporativas excessivamente orientadas ao consenso e à padronização podem transformar a IA em uma ferramenta de repetição, em vez de descoberta e evolução.

Henrique de CastroEscrito por Henrique de Castro
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Montagem dividida em três partes mostrando a trajetória da inteligência artificial dentro das empresas. À esquerda, uma tela de chatbot de IA com o texto “A IA chegou”. No centro, um homem de terno aparece estressado, com as mãos na cabeça diante de um notebook, acompanhado da frase “A TI recebeu e abriu o chamado”. À direita, uma fila de pessoas em um corredor simboliza burocracia corporativa, com o texto “A fila virou cultura”. A imagem usa tons azul, vermelho e verde para representar as diferentes etapas do processo.

Entenda por que colocar a inteligência artificial apenas sob responsabilidade da TI pode limitar inovação, criatividade e aprendizado nas empresas.

Ao menos uma vez por semana, alguma empresa me procura dizendo que a Inteligência Artificial está sendo implementada pela TI.

Como se a inovação fosse um chamado.

Como se o futuro tivesse fila de atendimento.

Há algo perturbador em um mundo onde tudo funciona perfeitamente.

Imagine uma organização onde cada processo tem dono, cada risco tem mitigação, cada ideia tem aprovação.

Nada falha, nada surpreende, tudo tão sensato… E insuportável!

Sem surpresa, não há descoberta.

Sem descoberta, não há futuro, apenas a repetição otimizada do presente.

Lembro de uma reunião de diagnóstico com um cliente, alguns meses atrás, o diretor comercial tinha uma ideia clara do problema, o vendedor não preenche CRM. Quando chegou à TI, voltou como escopo técnico, a dor original tinha sumido. O que sobrou era um orçamento de chatbot sem propósito e um budget pré-aprovado para contratar uma startup.

Criatividade nunca morre por incompetência

Não estou dizendo que os profissionais de TI são pouco inovadores.

O ponto é que a missão central da área é eliminar risco. E IA exige exatamente o oposto, exige experimentação, tolerância ao fracasso e aceitação de que ninguém ainda sabe a forma certa de usar essas ferramentas.

O problema está no dono errado

Quando um pedido de inovação chega à TI já encapsulado em solução, “quero um chatbot”, “quero um sistema de IA”, a dor original desaparece no processo de tradução.

O que entra como visão sai como especificação.

O que entra como oportunidade sai como chamado.

Quem tem a dor precisa ser dono da solução, quando essa dor é transferida, transfere-se junto a responsabilidade e ouvimos a terrível frase: “o problema não é meu, é da TI”

Empresas bem-sucedidas falham não por falta de competência, mas porque otimizam o que já existe em vez de se abrirem para o novo. A TI opera exatamente nessa lógica, seu mandato é garantir que o presente funcione, não inventar o futuro.

Quando a inovação passa pela TI antes de chegar à liderança de negócios, o ciclo de aprendizado é cortado, o erro some, e com ele, a descoberta.

Falei bastante sobre isso quando tratei do crescimento descontrolado dos custos de nuvem, as automações que rodam fora do radar da TI, é sintoma exato desse desalinhamento.

As áreas não esperam mais, elas resolvem, só que sem estrutura, sem governança e sem aprendizado compartilhado.

IA adotada em cultura de consenso escala mediocridade

Uma IA operada por organizações que punem o erro, alimentada por processos pasteurizados e treinada em consenso não inova.

Replica a mesmice em escala industrial.

Uma pesquisa de 2024 demonstrou que a IA generativa aumenta a criatividade individual mas reduz a diversidade coletiva do conteúdo produzido, cada pessoa fica melhor e todos ficam iguais.

Foi identificado que homogeneização do pensamento persiste mesmo após a retirada da ferramenta, fica uma cicatriz cognitiva que não se apaga.

Organizações que eliminam o erro e depois adotam IA estão removendo o mecanismo de aprendizado em duas camadas ao mesmo tempo.

Há um paradoxo técnico que quase nunca é nomeado, pois modelos de linguagem aprendem por gradiente de erro. É o erro que calibra o modelo, ajusta os pesos, gera aprendizado real. Ao cortar a margem de erro, estruturalmente adotam uma tecnologia cujo funcionamento depende exatamente do que elas eliminaram.

A imperfeição vai virar produto

A consequência de longo prazo desta trajetória é contra-intuitiva.

Estes dias em um café com o Henrique Portugal, ele comentou que acredita em um futuro onde a alucinação da IA será vendida.

Tem fundamento, afinal, quando o MP3 tornou o áudio perfeito e acessível, o vinil voltou. O mercado de discos analógicos estava avaliado em USD 2,1 bilhões em 2024, projetando crescimento de 7% ao ano até 2032 não é por pura nostalgia, é uma resposta de mercado a um ambiente saturado de perfeição sintética.

A imperfeição removida voltou como identidade, com diferencial que o digital não consegue replicar.

Quantas vezes fui a uma locadora e descobri ótimos filmes simplesmente por serem os que estavam disponíveis por eu ter ido tarde demais e ali, descobri ótimos filmes como Highlander III (gosto pessoal não se discute rs). Hoje, com os streamings, fico horas tentando escolher e por vezes, não assisto nada.

O mesmo processo está em curso com a IA.

À medida que o mercado satura de conteúdo correto, fluente e sem acidente, a imperfeição vai virar luxo. Já vejo erros de português propositais em textos só para “mostrar que não foi a IA”.

Num movimento que parece absurdo hoje mas é consequência direta do que está sendo construído agora, surgirão produtos deliberadamente configurados para introduzir o acidente. Então sim, a alucinação vai virar produto.

As organizações que estarão preparadas para esse mercado são as que nunca deixaram de entender o valor do erro, que nunca terceirizaram a criatividade para quem tinha incentivo estrutural para eliminá-la.

O que fazer então?

Velocidade sem direção é caos organizado, e caos organizado com IA é caos em escala.

Três movimentos que considero inegociáveis:

  1. Devolver o ownership com a área que sente a dor liderando a solução, com suporte técnico da TI, suporte, não liderança. Vi isso funcionar em um escritório de advocacia que fizemos um gerador de contratos pela New Rizon Rizon. O problema era do sócio sênior, que entendia de contratos e detestava o tempo que gastava neles. A TI entrou como suporte técnico, viabilizou a nuvem para a solução rodar, não como líder do projeto. O resultado foi um sistema que o advogado de fato usou e usa até hoje, porque ele foi o dono da dor do começo ao fim.
  2. O segundo movimento é proteger o erro antes de escalar a IA. Uma organização que não tolera falha não aprende, e uma IA treinada nesse ambiente não inova, apenas reproduz em velocidade industrial o que já existe. Vai congelar o presente e o multiplicar
  3. O terceiro é o mais difícil, precisa recompensar o desentendimento produtivo. A reunião onde todo mundo concorda na primeira hora é sinal de alerta, não de maturidade. Quando visitei uma empresa do setor financeiro para um diagnóstico de adoção de IA, a primeira pergunta que fiz foi: “qual foi a última vez que alguém discordou abertamente aqui?” O silêncio que se seguiu me disse tudo que precisava saber. Antes da IA, fizemos um processo de design thinking.

Como pragmático, reforço que a tecnologia sozinha não resolve nada se o time, o processo e a cultura não estiverem preparados para receber.

Criatividade emerge onde há permissão para errar, estrutura para discordar e liderança disposta a ser dona do desconforto.

O resto é escalar o que já existe, e tenho certeza de que no estado em que está, não precisa de velocidade. Precisa de revisão.

Torça para que a sua empresa ainda cometa erros, o dia em que parar, é porque a IA já assumiu o controle, e ninguém percebeu.

Henrique de Castro

Henrique de Castro

CEO da New Rizon, atua ajudando grandes empresas a inovar com estratégia, engenharia e produto. Já impactou mais de 10 milhões de usuários em setores como fintechs, jurídico, educação e BPO.

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