O Brasil virou fazenda de dados. E está orgulhoso disso

O Brasil se posiciona como um grande fornecedor de dados na corrida global por inteligência artificial, enquanto depende de tecnologias e produtos desenvolvidos por potências como EUA e China. O artigo analisa como investimentos estrangeiros em infraestrutura, como data centers, não garantem autonomia tecnológica. Sem desenvolver modelos próprios e uma política nacional de IA, o país corre o risco de repetir padrões históricos de dependência econômica, exportando recursos brutos e importando valor agregado.

Compartilhe
Imagem abstrata em tons de azul representando um fluxo digital de dados. Linhas luminosas e pontos formam uma espécie de grade tridimensional que se estende em perspectiva, criando a sensação de profundidade e velocidade, como se o observador estivesse dentro de um túnel de informações ou rede tecnológica. O centro da imagem é mais escuro, com as luzes convergindo para ele, sugerindo processamento ou concentração de dados.

Brasil atrai investimentos em IA, mas segue dependente de big techs. Entenda o risco de se tornar apenas fornecedor de dados sem soberania tecnológica.

Tem circulado nos últimos dias, notícias que merecem mais atenção do que estão recebendo: EUA e China disputam quem vai vender ao Brasil “pacotes completos de IA”. Ambos trazem hardware, modelos treinados e frameworks de governança. Ambos trazem, no rodapé do contrato, a política externa de seus países.

E o Brasil? Está negociando com os dois ao mesmo tempo, achando que ser disputado é o mesmo que ter poder.

Não é.

Já vivemos esse filme antes. O Brasil tem terras raras, mas não tem a cadeia de semicondutores. Tem enormes plantações de café mas importa Nespresso. Acreditamos erroneamente que ter o recurso bruto seria suficiente. Agora repetimos o erro com dados.

O Brasil tem uma população enorme e digitalizada. Somos ricos em dados. Sim. E o Congo é rico em coltan. Isso não impediu que ele continuasse entre os países mais pobres do mundo, enquanto outros fabricam os chips com o seu mineral.

Dado sem produto tecnológico é petróleo não refinado, ouro de tolo. A riqueza está na refinaria — nos modelos, nos produtos, na inteligência extraída. E a refinaria não é nossa.

As big techs arrotaram aos quatro ventos anúncios de investimentos que enchem manchetes: R$ 14,7 bilhões da Microsoft, R$ 10,1 bilhões da Amazon. Aplausos. Manchetes. Fotos com autoridades.

Mas leia o que elas estão construindo: data centers. Concreto, energia e cabos. A camada mais próxima da commodity na cadeia de valor da IA.
Enquanto isso, só o setor público brasileiro (federal, estadual e municipal) pagou aproximadamente R$ 23 bilhões às mesmas empresas em licenças de software, nuvem e segurança digital. Só no último ano: R$ 10,35 bilhões (carece de fontes).

O fluxo é cristalino: recebemos investimentos na camada de infraestrutura — commodity — e recebemos de volta, só em contratos públicos, o valor gerado pela camada de produto e serviço que nós não construímos.

A questão não é quem nos vende o chip. É quem construiu o produto de IA que vai decidir crédito, triagem de políticas públicas e recomendação de conteúdo para 215 milhões de brasileiros. É quem define os valores embutidos nos sistemas que o Estado usa para governar.

Não se trata de fechar as portas para o capital estrangeiro. Mas a pergunta estratégica é: o que estamos construindo com nossa capacidade nacional enquanto isso? De uma política nacional de IA que seja, de fato, nacional — não um cardápio de opções importadas.

Recursos naturais sem industrialização geram dependência. Dados sem capacidade soberana de processamento geram o mesmo.
A janela está aberta. Mas janelas fecham.

Pro. Anderson Soares

Pro. Anderson Soares

Fundador e Vice Presidente de Tecnologia do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA)

Ver mais artigos desse autor

Recomendadas para você

Os mitos sobre IA que podem custar caro às empresas

Os mitos sobre IA que podem custar caro às empresas

A evolução da inteligência artificial é real, mas também alimenta mitos sobre o que os sistemas conseguem fazer. Entenda como expectativas irreais sobre modelos e agentes de IA podem afetar investimentos, projetos e decisões nas empresas.

Pro. Anderson Soares
25 DE SETEMBRO
Background newsletter

Inscreva-se na nossa newslleter

O Brasil virou fazenda de dados. E está orgulhoso disso | AI Brasil