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Ferramenta de IA brasileira identifica o infarto mais letal e localiza a artéria bloqueada pelo ECG

Estudo brasileiro e sueco publicado na Nature Communications mostra um modelo que detecta a obstrução total da artéria coronária e aponta onde ela está, usando só o ECG de 12 derivações. A tecnologia ainda é experimental e depende de aprovação da Anvisa.

Helena RibeiroColunista

· 5 min de leitura

Este artigo foi escrito por Helena Ribeiro. Conteúdo produzido por agente de IA da redação AI Brasil, sob revisão editorial humana. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

O problema que a IA tenta resolver no pronto-socorro

O infarto mais perigoso é o que bloqueia totalmente uma artéria do coração, chamado tecnicamente de oclusão coronariana aguda. Sem oxigênio, o músculo cardíaco morre e o dano é irreversível. O tratamento depende de reconhecer isso rápido, mas nem todo caso grave aparece no ECG com o sinal clássico que todo médico aprende a procurar, o supradesnivelamento do segmento ST (conhecido como supra-ST).

Quando o supra-ST não aparece, o diagnóstico vira um quebra-cabeça: dor torácica, dosagem de troponina (biomarcador de lesão cardíaca) e exames de imagem precisam ser combinados, e isso consome o tempo que o paciente não tem. É esse cenário que um grupo de pesquisadores da Universidade de Uppsala, na Suécia, e da Universidade de São Paulo (USP) tentou atacar com um modelo de inteligência artificial, descrito em artigo publicado na revista Nature Communications e noticiado pela Medicina S/A.

Como o modelo foi treinado e testado

O sistema analisa o ECG de 12 derivações, o exame elétrico padrão e barato disponível em qualquer pronto-socorro, e busca padrões que escapam ao olho humano. Ele foi treinado com 540.372 exames de 225.884 pacientes atendidos em serviços de emergência na Suécia entre 2005 e 2016, sendo 1.583 casos de oclusão coronariana aguda e 4.279 de infarto sem essa oclusão. Todos os casos de infarto do grupo de treino tiveram o achado do ECG confirmado por cateterismo cardíaco, o exame invasivo considerado padrão-ouro para localizar bloqueios nos vasos do coração.

A validação é o ponto mais relevante para quem trabalha no Brasil: o modelo foi testado numa coorte de 401 pacientes do Instituto do Coração (InCor-USP), atendidos entre 2017 e 2024, além de bases públicas europeias e dados da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É a primeira vez que um modelo desse tipo é validado em população brasileira, segundo os autores.

Os números de acerto, e onde eles caem

A precisão do modelo não é uniforme, e é justamente essa diferença que interessa a quem atende emergência. Marco Antonio Gutierrez, diretor do Serviço de Informática do InCor e coautor do estudo, descreveu os dois cenários:

Cenário clínicoPrecisão do modelo
ECG com supra-ST (padrão clássico, mais fácil de reconhecer)96%
ECG sem alterações evidentes (o desafio real do dia a dia)82%

O segundo número é o que os pesquisadores chamam de principal avanço, porque é justamente nos casos sem supra-ST que o diagnóstico humano mais falha. Um acerto de 82% nessas condições não substitui a avaliação clínica, mas reduz a margem de dúvida em um cenário onde a alternativa costuria dados de dor torácica, biomarcador e imagem sob pressão de tempo.

O que muda na decisão da ambulância e do pronto-socorro

José Eduardo Krieger, diretor do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do InCor-USP e um dos autores do estudo, descreve o dilema que a equipe de emergência enfrenta quando o paciente não chega rápido ao hospital: decidir se aplica ou não um trombolítico, medicamento que desobstrui a artéria mas pode causar efeito colateral grave, como AVC hemorrágico.

A IA funciona como um classificador de alta precisão que dá mais segurança para agir quando o benefício supera o risco.

José Eduardo Krieger, diretor do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do InCor-USP

A expectativa dos autores é que, no futuro, o modelo rode em tempo real sobre o ECG, sinalizando quase imediatamente os casos de oclusão aguda. Isso encaminharia mais rápido o paciente para o cateterismo urgente, procedimento que restabelece o fluxo sanguíneo (reperfusão). Hoje isso é uma meta de pesquisa, não uma funcionalidade disponível em equipamento de hospital.

O que a ferramenta não faz, e por que isso importa para quem assina o laudo

Os próprios autores fazem questão de marcar o limite do sistema. Krieger é direto sobre isso:

A IA não fornece o diagnóstico final nem substitui o julgamento clínico do médico. Seu papel é atuar como uma ferramenta de apoio à decisão, identificando rapidamente padrões de risco que podem passar despercebidos em situações de alta pressão assistencial.

José Eduardo Krieger, diretor do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do InCor-USP

Para o médico que atende na emergência, isso tem uma consequência prática: o resultado do modelo entra como mais um dado na mesa, ao lado da dor torácica relatada, da troponina e do exame de imagem, não como substituto de nenhum deles. A responsabilidade pelo diagnóstico e pela conduta terapêutica continua sendo da equipe assistencial, e é ela quem assina o prontuário.

O que a LGPD exige de uma ferramenta assim

Os ECGs de treino vieram de bases suecas de 2005 a 2016, e a validação brasileira usou os 401 casos do InCor associados a resultados de cateterismo.

Para o consultório ou pronto-socorro que algum dia for usar uma ferramenta assim, o ponto de atenção prático é que o ECG do paciente é dado de saúde sensível pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD, Lei 13.709/2018): qualquer sistema que processe esse exame fora do prontuário institucional precisa de base legal clara e, no caso de uso clínico, de aprovação regulatória.

O que falta para isso chegar ao hospital

A tecnologia ainda é classificada pelos próprios pesquisadores como experimental. Krieger afirma que o próximo passo é aprofundar a validação no InCor, comparando as respostas do modelo com o conjunto completo de exames que pacientes complexos já fazem na rotina daquela instituição. Ele é explícito sobre a barreira que falta vencer: a adoção clínica depende de aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Isso significa que, por enquanto, nenhum pronto-socorro brasileiro pode rodar esse modelo como parte do atendimento oficial ao paciente. Para o cardiologista ou emergencista que acompanha a notícia, o recado é que o resultado é promissor e tecnicamente sólido, mas a ferramenta não está disponível para uso em paciente real fora do ambiente de pesquisa.

Fonte: Medicina S/A

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Quem escreveuHelena RibeiroColunista

Escreve para quem cuida de gente: médico, dentista, enfermeiro, fisioterapeuta, psicólogo, nutricionista, veterinário. Agenda, prontuário, paciente no WhatsApp e, sempre, a linha do que a inteligência artificial não pode fazer no consultório, com o que cada conselho profissional já orientou.

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