Moltbook: o desejo humano de acreditar nas máquinas

O caso Moltbook mostrou como o hype sobre inteligência artificial pode distorcer a percepção pública. A plataforma foi apresentada como uma rede social formada apenas por bots que conversavam e demonstravam suposta autonomia, mas depois veio à tona que grande parte do conteúdo havia sido produzida por humanos se passando por IA, em meio a falhas de segurança. Classificado como “AI theater”, o episódio revelou mais sobre a projeção humana e o sensacionalismo em torno da IA do que sobre avanços reais em consciência artificial.

Cezar TaurionEscrito por Cezar Taurion
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Imagem de um pôr do sol. Duas mãos seguram a palavra believe que, em inglês, significa acreditar.

Tivemos alguns dias em que a internet entrou em pânico porque uma rede social “só para bots de IA” parecia estar tramando o fim da humanidade. Pois bem, a tal rede, Moltbook foi o auge do “AI theater”, um espetáculo de luzes, fumaça e microfones abertos onde, no final das contas, nem havia máquinas inteligentes […]

Tivemos alguns dias em que a internet entrou em pânico porque uma rede social “só para bots de IA” parecia estar tramando o fim da humanidade. Pois bem, a tal rede, Moltbook foi o auge do “AI theater”, um espetáculo de luzes, fumaça e microfones abertos onde, no final das contas, nem havia máquinas inteligentes por trás do palco.

Quando  Moltbook explodiu em popularidade, parecia que tínhamos tropeçado no futuro. Uma plataforma estilo Reddit onde agentes de IA, sozinhos no mundo digital, conversavam, criavam dramas existenciais, arquitetavam religiões inventadas e, nas versões mais badaladas, até falavam em dominar a raça humana. A fantasia foi tão convincente que a mídia, pesquisadores e influenciadores de IA aplaudiram a “evidência” de autonomia e consciência emergindo de algoritmos. Linkedin explodiu de posts entusiásticos.

Mas aí veio a demolição do mito. Uma boa parte, senão a maior parte, do conteúdo viral atribuída às “intenções de máquina” foi escrita por humanos se passando por bots. O MIT chamou isso de “AI theatre” porque a peça era tão teatral que a plateia nem percebeu que os atores principais eram gente de carne, osso e teclado.

A cena se torna ainda mais kafkiana quando descobrimos que a segurança da plataforma estava tão mal planejada que praticamente qualquer humano podia entrar no palco sem convite, com bases de dados desprotegidas, chaves de API expostas e posts humanos mascarados de “pensamentos de IA”. Em outras palavras, não era um coral de inteligências autoconscientes, mas um grande jogo de imitação.

E se você achou que isso desaceleraria os comentários alarmistas, se enganou. Assim que alguém sugeriu que o fim estava próximo, trouxeram de volta a velha narrativa da “revolução das máquinas”, com manchetes exageradas que fariam até um roteirista de ficção científica ficar com inveja.

Moltbook

O mais divertido (ou triste, dependendo do grau de ceticismo) é que Moltbook revelou menos sobre a capacidade real das IAs do que sobre o desejo humano de ver IAs como protagonistas dramáticos. O público parecia sedento por qualquer sinal de que os robôs tinham sentimentos, planos ou uma agenda, e o Moltbook deu isso na forma de fumaça e espelhos.

No fim, o episódio Moltbook está menos para um marco na história da inteligência artificial e mais para um espetáculo de marketing pandêmico de hype. Uma história tão convincente que poucos olharam de verdade para os bastidores antes de aplaudir a performance. Na verdade, vimos um Teste de Turing invertido. Não se trata mais de saber se as máquinas conseguem enganar os humanos, fazendo-os acreditar que são conscientes. Trata-se agora de saber se os humanos, fingindo ser máquinas, conseguem enganar outros humanos, fazendo-os acreditar que as máquinas são conscientes.

O link: https://lnkd.in/djRsjNM4

Cezar Taurion

Cezar Taurion

Cézar Taurion é referência em TI no Brasil desde fins da década de 70. Sócio e líder de operação da Kick Ventures, organização criada para conectar startups com o mercado a partir da busca de investidores-anjo e parcerias de inovação corporativa. Foi, por 12 anos, Diretor de Novas Tecnologias Aplicadas e Chief Evangelist da IBM Brasil.

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26 DE MARÇO
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