Passei os últimos vinte anos atravessando uma ponte que poucos executivos no Brasil cruzam por inteiro: da computação à influência e, depois, da influência à construção de ecossistemas. Comecei na Ciência da Computação, migrei cedo para a arena comercial, onde abstração não sobrevive à pressão de margem, aprendi comportamento humano no varejo físico, vivi telecom, marketing corporativo e, nos últimos anos, mergulhei de vez na adoção prática de inteligência artificial no Brasil.
Esse percurso me levou a uma convicção incômoda: o jogo da visibilidade digital já mudou, mas a maioria das empresas ainda está operando com o manual antigo.
A disputa não é mais por clique. É por citação, confiança e ação.
Quando um motor de IA se torna o primeiro filtro de decisão, quem não é legível por ele simplesmente desaparece antes mesmo da conversa começar. Esse é o ponto de ruptura entre o SEO clássico e o que venho chamando de Generative Engine Optimization (GEO).
SEO foi ranking. GEO é síntese
No SEO, a batalha era por posição.
No GEO, a disputa é por narrativa.
Os motores generativos não apenas indexam páginas; eles procuram fontes, selecionam trechos, combinam informações e escrevem respostas. Eles decidem o que entra e o que fica de fora quando alguém pergunta “qual é a melhor opção”.
Se a sua marca não aparece como fonte confiável nesse processo, você vira silêncio.
Isso muda tudo: métricas, processos, vaidade e até o ego do marketing.
Eu precisei aceitar que, muitas vezes, o usuário não vai clicar no site e, ainda assim, minha marca pode estar ganhando espaço, influência e preferência. Essa constatação bagunça dashboards, mas revela maturidade estratégica.
GEO não é conteúdo. É governança de presença
Tratar GEO como “mais uma disciplina de conteúdo” é um erro comum.
O que está em jogo aqui é governança.
Governança de presença significa tratar “o que a máquina diz sobre você” como um ativo corporativo, do mesmo jeito que marca, risco e compliance. Não é campanha. É rotina.
Na prática, isso envolve:
- monitorar prompts estratégicos,
- mapear fontes que influenciam respostas,
- corrigir inconsistências públicas,
- alinhar PR, produto, jurídico e vendas,
- construir ativos citáveis: definições claras, comparações honestas, FAQs de objeção, estudos de caso sem exagero.
A empresa que não faz isso vira refém da narrativa de terceiros, ou da alucinação bem-intencionada de uma IA.
Agentic commerce: funil virou infraestrutura
Outro ponto sem volta é o avanço do comércio agêntico.
Agentes de IA já começam a pesquisar, comparar, negociar e executar etapas inteiras da jornada de compra.
Isso reduz CAC, acelera decisão e cria novos riscos.
Minha tese é simples: agentes não substituem responsabilidade humana; substituem tarefas. O erro é tratar isso como ameaça, não como redistribuição de trabalho.
O vendedor deixa de ser caçador de PDF e vira arquiteto de solução.
Mas isso só funciona se o playbook for redesenhado com clareza:
- o que o agente prepara,
- o que o humano decide,
- o que é governado por limites e aprovações.
Quando a empresa não faz essa tradução, nasce o medo. E medo gera sabotagem silenciosa.
Hype automatiza caos. Valor exige repetição
Eu me tornei um defensor crítico da adoção de IA porque vi o mesmo erro se repetir: empresas plugaram GenAI em processos ruins e comemoraram velocidade… até o caos escalar.
IA é multiplicador. De qualidade ou de bagunça.
O trade-off aqui é cruel:
- executivos querem impacto em 90 dias;
- organizações precisam de dados decentes, fluxos claros e gente treinada.
Acelerar sem base é Fórmula 1 em estrada de terra.
Já comemorei projetos “amados por todos” que morreram três meses depois. Hype seduz. Valor exige disciplina, cadência e repetição.
Métricas novas também enganam
No GEO, o centro do dashboard sai do clique e vai para a presença qualificada na resposta. Eu olho para:
- frequência de menção,
- taxa de citação,
- share of voice generativo,
- qualidade do pipeline,
- avanço real em vendas.
Mas aprendi da pior forma: métrica sem par de qualidade vira vaidade.
Marca pode aparecer mais porque virou controvérsia, não preferência.
Quando a métrica sobe e o negócio não acompanha, eu sacrifico volume para recuperar densidade. Menos lead, mais fit. Marketing e vendas com SLA compartilhado.
Produto + comunidade não é palco. É mecanismo
Depois da experiência com a AI Brasil, ficou claro pra mim: comunidade só vira moat quando é mecanismo de aprendizado e distribuição, não quando vira palco de aplauso.
Comunidade boa encurta o ciclo:
problema real → feedback → melhoria → caso → reputação.
Comunidade ruim consome energia e devolve dopamina.
Energia é o recurso mais caro de um CEO.
O Brasil tem uma chance — sem atalhos
Acredito, de verdade, que o Brasil tem uma chance rara de sair da segunda divisão não por “ter a melhor IA”, mas por redesenhar trabalho, educação e produtividade com pragmatismo.
Quem construir dados, governança e talento vira referência, mesmo sem ser o país mais rico.
Mas não existem atalhos.
O futuro não vai esperar nossa organização interna.
E o preço de executá-lo é alto: menos hype, mais disciplina; menos promessa, mais entrega; menos vaidade, mais repetição.
Esse é o jogo agora.
E ele já começou.









