O uso de inteligência artificial passou a integrar o processo de auditoria do Fundo de Pensão das Nações Unidas (UNJSPF), responsável por administrar pagamentos anuais superiores a US$ 3,5 bilhões a servidores do sistema ONU. Em 2025, uma equipe de auditoria desenvolveu uma ferramenta própria que permitiu revisar, de forma automatizada, mais de 11 mil benefícios já certificados.
A iniciativa marcou uma mudança em relação ao modelo tradicional de auditoria, geralmente baseado em amostragem. Com apoio de IA, os auditores adotaram uma abordagem de cobertura total, recalculando 11.356 registros e alcançando cerca de US$ 603,5 milhões em valores analisados. O escopo incluiu diferentes modalidades, como aposentadorias, benefícios diferidos e resgates por desligamento.
A inteligência artificial foi utilizada principalmente na organização e interpretação de regras complexas que regem o fundo. O sistema previdenciário do UNJSPF envolve dezenas de variáveis, como tempo de contribuição, critérios de elegibilidade, médias salariais e fatores de ajuste. A tecnologia permitiu estruturar essas diretrizes em um modelo lógico capaz de executar cálculos em larga escala.
Durante o processo, foram identificadas mais de 100 regras e situações normativas relevantes para a concessão dos benefícios. A aplicação do recálculo automatizado apontou duas inconsistências nos valores originalmente definidos, posteriormente registradas como achados de auditoria.
O desenvolvimento da ferramenta ocorreu ao longo de dois meses e envolveu etapas como levantamento detalhado das normas do fundo, modelagem das regras com suporte de inteligência artificial e validação técnica dos resultados. Apesar do uso intensivo de automação, todas as conclusões passaram por revisão dos auditores responsáveis.
A integração entre conhecimento técnico e recursos de IA permitiu acelerar a análise e ampliar o nível de detalhamento da fiscalização. Segundo os responsáveis pelo trabalho, o modelo adotado viabiliza a verificação sistemática da aderência dos cálculos às regras estabelecidas, algo que, em métodos convencionais, demandaria mais tempo e limitaria o alcance da auditoria.
A iniciativa ocorre no contexto da atuação do Brasil no Conselho de Auditores da ONU, assumida em 2024. Em conjunto com instituições da França e da China, o país participa da auditoria externa das finanças da organização, incluindo fundos, programas e operações de paz.
Além de revisar a conformidade dos pagamentos, o trabalho busca fortalecer a governança e a confiabilidade dos sistemas financeiros da ONU. O uso de inteligência artificial, nesse cenário, é apontado como um recurso para ampliar a capacidade de análise e reduzir riscos de inconsistências em processos de grande escala.




