Ode with Anthropic e a queda da IBM: o valor migrou para o resultado

O artigo analisa como a queda histórica das ações da IBM e o lançamento da Ode with Anthropic representam uma mudança estrutural no mercado de tecnologia corporativa. A tese é que o valor deixa de estar na venda de licenças de software e serviços tradicionais para migrar à entrega de resultados por meio de inteligência artificial. O texto também explica os impactos dessa transformação para empresas brasileiras, consultorias, fornecedores de ERP e executivos que precisam redefinir suas estratégias de adoção de IA.

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Ilustração conceitual dividida em dois cenários. À esquerda, servidores antigos e computadores obsoletos se desintegram em meio a escombros, simbolizando o declínio do modelo tradicional de software corporativo. À direita, profissionais observam uma grande estrutura tecnológica iluminada com um cérebro formado por conexões digitais, representando a ascensão da inteligência artificial como novo paradigma para empresas. Um fluxo de luz conecta os dois ambientes, indicando a transição entre as duas eras tecnológicas.

Entenda por que a queda da IBM e a criação da Ode with Anthropic sinalizam uma nova era da IA enterprise, com foco em resultados em vez de software.

Na mesma semana, a IBM teve o pior pregão da sua história e a Anthropic lançou uma empresa de serviços de IA com engenheiros embarcados no cliente. Não são notícias separadas: é a migração do valor da licença e da hora faturável para o resultado implementado — e o Brasil está na primeira onda.

A semana em que o valor trocou de lado

Na tarde de 14 de julho de 2026, os terminais de Nova York mostraram algo que nenhum operador em atividade tinha visto: a IBM, fundada em 1911, derretendo 26% no intradia. O fechamento registrou queda de 25,21%, a US$ 217,07 — o pior pregão da história da companhia, segundo a CNBC, pior que a Black Monday de 1987. A leitura corrente tratou o caso como tropeço de uma gigante. Eu leio de outro jeito: foi o dia em que o valor do mercado enterprise trocou de lado — da licença de software e da hora faturável para o resultado implementado por IA.

A Bloomberg resumiu na manchete: a maior queda desde pelo menos 1968. Entre US$ 67 bilhões e US$ 69 bilhões de valor de mercado evaporaram em um dia, conforme a fonte. O gatilho foi uma confissão, não um balanço. A receita preliminar do segundo trimestre, de US$ 17,2 bilhões, ficou abaixo do consenso de US$ 17,86 bilhões — e o CEO explicou o porquê em carta a investidores: nas últimas semanas de junho, os clientes deslocaram o capex de software para servidores, armazenamento e memória, para garantir infraestrutura de IA escassa antes de novas altas de preço.

“Essas condições exigem que as nossas equipes executem com perfeição e, neste trimestre, nós falhamos. Não nos adaptamos nem agimos com rapidez suficiente.”— Arvind Krishna, CEO da IBM, em carta a investidores (14 de julho de 2026; “this quarter we faltered”, no original)

Menos de 24 horas depois, na manhã de 15 de julho, Anthropic, Blackstone e Hellman & Friedman anunciaram, via Business Wire, o lançamento da Ode with Anthropic: empresa independente de serviços de IA de US$ 1,5 bilhão, construída sobre a aquisição da Fractional AI, com cerca de 100 engenheiros — mais da metade ex-fundadores, segundo o TechCrunch — embarcados dentro dos clientes para construir sistemas sobre o Claude. Não é um lance isolado. Em 11 de maio, a OpenAI fez o movimento simétrico com a Deployment Company, que captou mais de US$ 4 bilhões de 19 investidores liderados pela TPG.

O artigo em quatro formatos

Além do texto integral, esta análise foi produzida em quatro formatos: um vídeo vertical de 90 segundos com legendas, um podcast narrado com transcrição, uma apresentação executiva de 12 slides e um carrossel com os números-chave. O vídeo e o podcast estão logo abaixo; o carrossel ilustra a seção de evidências e a apresentação acompanha a seção sobre o mecanismo.

Não são três notícias. É um único evento

A queda histórica da IBM, o derretimento acumulado de SAP, Salesforce, Oracle, Workday e Adobe e a criação da Ode e da Deployment Company formam um único fenômeno: o valor migra de licenças de software e horas faturáveis para resultados implementados por IA. O aperto é simultâneo. Quem vende intermediação — prateleira ou pirâmide — perde dos dois lados.

Considere o que cada camada vende. O software de prateleira vende a promessa de capacidade: a empresa licencia o sistema e ainda precisa fazê-lo funcionar. A consultoria tradicional vende a ponte — analistas faturando horas para transformar licença em processo. Ambas são intermediação entre a intenção do executivo e o resultado operacional.

Quando o cliente da IBM desvia orçamento de software para chips e memória, ele prefere comprar capacidade de gerar resultados a comprar mais prateleira. Quando Anthropic e OpenAI criam empresas de engenheiros forward-deployed — embarcados no cliente para construir e operar o sistema —, declaram que a ponte é valiosa demais para ficar com terceiros. Sobrou pouco espaço no meio.

A evidência: o dinheiro mudou de endereço

Os números de 2026 mostram os dois lados da migração. As plataformas de software perderam entre um quarto e metade do valor de mercado no ano, enquanto a receita anualizada da Anthropic quintuplicou em seis meses e o gasto corporativo com IA cresceu 3,2 vezes em um ano. O dinheiro não sumiu. Trocou de destino.

O lado da destruição, em números:

EmpresaDesempenho em 2026Dado adicionalFonte
IBM-25,21% em 14/07, a US$ 217,07US$ 67 bilhões a US$ 69 bilhões apagados em um diaCNBC; Bloomberg; Forbes
SAP-32% no ano; -48,06% ante o pico de €266 (09/07/2025)Congelamento de contratações fora da divisão de IA (memorando de 02/07)ad-hoc-news
Workday-45,5% no ano, a US$ 112,13-54,7% ante a máxima de setembro de 2025Yahoo Finance/StockStory
Adobe-37% no ano (medição de 11/06)Fechou 14/07 em queda de 4,3%24/7 Wall St.; Yahoo Finance
Oracle-29% no ano (até 11/07)Capex de US$ 56 bilhões (+162%); fluxo de caixa livre de -US$ 24 bilhõesFX Leaders
SalesforceQueda entre 25% e 38%, conforme a data de mediçãoFechou 14/07 a US$ 167,56, perto da mínima de 52 semanasMarketBeat; Kavout; FX Leaders

O mercado leu o aviso da IBM como sistêmico. ServiceNow fechou em queda de 5,8%, e Accenture e Cognizant chegaram a cair 8% e 7% no intradia, segundo a Benzinga. No dia seguinte, em Tóquio, NEC caiu 4,44%, Fujitsu, 5,42%, e BayCurrent, 6,70%, conforme a TradingKey. O Goldman Sachs, em nota citada pela TradingKey, escreveu que o evento “validará completamente o cenário pessimista para software”.

Em fevereiro, o lançamento do Claude Cowork e dos plugins abertos da Anthropic já havia apagado cerca de US$ 285 bilhões de valor de mercado de SaaS em aproximadamente 48 horas — episódio que a imprensa financeira apelidou de “SaaSpocalypse”. O aviso da IBM não abriu a porteira; confirmou que ela já estava aberta.

Do outro lado, a ascensão é mensurável. A receita anualizada da Anthropic saltou de US$ 9 bilhões no fim de 2025 para US$ 30 bilhões em abril de 2026, segundo a VentureBeat, e para US$ 47 bilhões em maio, conforme a imprensa especializada. A Series H de US$ 65 bilhões avaliou a companhia em US$ 965 bilhões, segundo a própria empresa. O dado central vem do relatório da Menlo Ventures, reproduzido pelo Yahoo Finance: a Anthropic detém 40% do gasto corporativo com APIs de modelos de linguagem, contra 27% da OpenAI e 21% do Google, num mercado que movimentou US$ 37 bilhões em 2025. É a maior fornecedora enterprise de IA do mundo entrando na implementação.

O mecanismo: por que agora

Quatro engrenagens giram juntas: o capex de IA canibaliza o orçamento de software; agentes corroem o preço por assento; engenheiros embarcados entregam o resultado que a consultoria apenas recomendava; e os donos dos modelos verticalizaram a implementação. Nenhuma bastaria sozinha. Combinadas, mudam a estrutura do mercado enterprise.

A primeira engrenagem é aritmética de orçamento. O capex de IA não se soma ao gasto de software — canibaliza. Com a produção de memória de 2026 praticamente esgotada em contratos de longo prazo, conforme apurou a TradingKey, os clientes anteciparam compras de infraestrutura e cortaram onde era mais fácil. O Barclays, citado pela mesma fonte, notou que o episódio contradiz a tese da IA “aditiva” ao software.

A segunda é o modelo de precificação. Software corporativo cobra por assento; agentes de IA reduzem a quantidade de humanos sentados. Análises da Kavout e da TIKR apontam esse medo como motor da desvalorização de Salesforce, Workday e Adobe. O paradoxo da Salesforce ilustra o ponto: o Agentforce atingiu receita recorrente anual de US$ 1,2 bilhão, com alta de 205% ao ano, segundo o Motley Fool — e a ação segue perto da mínima, porque o negócio novo não compensa a reprecificação do núcleo.

A terceira é a natureza da entrega. O forward-deployed engineering, consagrado pela Palantir, inverte a lógica da consultoria: em vez de recomendar num deck, o engenheiro embarcado constrói o sistema, deixa-o rodando e permanece no suporte. A Fortune registrou a proporção que explica o apetite: para cada US$ 1 gasto em software, empresas gastam US$ 6 em serviços. É essa camada de US$ 6 que os laboratórios decidiram capturar.

A quarta fecha o circuito: os donos dos modelos verticalizaram. A Ode nasce “Claude-first”, com acesso direto ao time de IA aplicada da Anthropic e um consórcio que inclui Goldman Sachs, General Atlantic, Apollo, GIC e Sequoia, segundo o press release. A Deployment Company nasce com Bain & Company, Capgemini e McKinsey como sócias-fundadoras. Chris Taylor, CEO da Ode, disse ao TechCrunch ser “bem fácil imaginar isso como uma empresa de trilhão de dólares algum dia, se executarmos bem”. Pode ser entusiasmo de fundador. Mas dois laboratórios líderes fazendo o mesmo movimento no mesmo trimestre não é coincidência.

As consultorias tradicionais podem não ter tempo

As Big Four (Deloitte, PwC, EY e KPMG), a Accenture e a McKinsey enfrentam a hipótese de não reagirem a tempo: a Accenture perdeu metade do valor de mercado em 2026, a base de juniores encolhe e os laboratórios de IA competem agora na implementação. Os escudos existem. Mas protegem menos do que parecem.

O mercado já precifica a dúvida. A ação da Accenture caiu mais de 50% em 2026, de cerca de US$ 259 para a faixa de US$ 125 a US$ 137, segundo o Motley Fool de 27 de junho; em 18 de junho, perdeu quase um quinto do valor num único pregão, após balanço com bookings em queda. Em 2025, a companhia já havia cortado mais de 11 mil pessoas num trimestre, e a CEO Julie Sweet declarou à CNBC que a firma está “saindo”, em cronograma comprimido, de profissionais cuja requalificação em IA “não é um caminho viável”.

A McKinsey encolheu de 45,1 mil para cerca de 40 mil pessoas em 18 meses — a maior redução da sua história, segundo a Fortune, que cita o Financial Times. O substituto já foi contratado.

“A McKinsey tem 60 mil pessoas, mas 20 mil delas são agentes de IA.”— Bob Sternfels, sócio-diretor global da McKinsey (OfficeChai, 2026)

A erosão mais grave é estrutural e silenciosa: a base da pirâmide está sendo desmontada. As vagas de graduados nas Big Four do Reino Unido caíram 44% em 2025, segundo a BM Magazine; a PwC planeja reduzir a contratação de entrada nos EUA em quase um terço em três anos, conforme documentos obtidos pelo Business Insider; a EY adiou a data de início dos seus graduados por três anos consecutivos. O modelo dessas firmas depende de juniores faturando horas a margens altas — e a evidência mostra que a IA ataca exatamente esse degrau. No experimento com 758 consultores da BCG publicado no periódico revisado por pares Organization Science, quem usou GPT-4 completou 12,2% mais tarefas, 25,1% mais rápido e com qualidade cerca de 40% superior — e o maior ganho veio dos profissionais de desempenho mais fraco. Sem base faturável, a pirâmide não para em pé. Sem pirâmide, não há pipeline de sócios.

Há ainda o risco da transição malfeita. Em outubro de 2025, a Deloitte Austrália devolveu parte do pagamento de um relatório de cerca de AU$ 440 mil ao governo australiano depois que um pesquisador da Universidade de Sydney encontrou referências inexistentes e citação judicial fabricada — alucinações de IA generativa, conforme a Fortune. O caso veio à tona quase junto do anúncio da parceria da firma com a Anthropic. Cobrar preço de artesanato humano entregando IA sem controle de qualidade é o pior dos mundos.

A honestidade intelectual exige o outro lado. A demanda de curto prazo é recorde: a Accenture registrou bookings de US$ 22,1 bilhões no segundo trimestre fiscal de 2026, com 41 clientes acima de US$ 100 milhões no período — a própria disrupção gera trabalho. A auditoria obrigatória das Big Four é franquia protegida por lei, fora do alcance de uma Ode; e a regulação de IA cria demanda nova — 78% dos executivos não confiam que passariam numa auditoria de governança de IA em 90 dias, segundo a Grant Thornton (2026). A cooptação corre nos dois sentidos: a Deloitte contratou Claude para mais de 470 mil funcionários — o maior deployment enterprise da Anthropic, segundo a CNBC —, a KPMG fechou aliança para 276 mil profissionais, a PwC é a maior cliente corporativa da OpenAI, e McKinsey, Bain e Capgemini são sócias-fundadoras da própria Deployment Company. E o precedente pede humildade: Clayton Christensen previu a disrupção da consultoria na Harvard Business Review em outubro de 2013 — e a década seguinte foi de crescimento recorde das firmas.

Meu balanço é menos confortável que o precedente. Christensen via a ameaça no canal: plataformas modulares substituindo a firma integrada. A IA de 2026 ataca a produção do trabalho — a análise, o código, o documento. E o atacante é o dono do modelo de fronteira, avaliado em US$ 965 bilhões, com os maiores fundos de private equity no cap table. As consultorias tradicionais não vão desaparecer; auditoria, regulação e relacionamento garantem receita por décadas. Mas vender horas de pirâmide para implementar tecnologia tem, na minha leitura, janela de reinvenção de poucos anos, não de uma década. Quem tratar 2026 como 2013 descobrirá a diferença da pior forma.

O Brasil, desta vez, está na primeira onda

O padrão brasileiro é receber ondas tecnológicas com anos de atraso; esta chega em tempo real. O Brasil é o terceiro maior mercado do Claude e do ChatGPT, Anthropic e OpenAI abrem operação em São Paulo e o comprador corporativo local já validou agentes em escala. O risco e a oportunidade chegam juntos.

O ensaio já aconteceu. Em fevereiro de 2026, quando a Anthropic lançou as ferramentas que automatizam tarefas corporativas, a TOTVS caiu cerca de 20% em dois dias, conforme o Seu Dinheiro — o proxy local da tese “IA come software” sangrou meses antes da IBM. Em 14 de julho, a B3 absorveu a réplica: o Ibovespa fechou em alta de 0,51%, aos 176.641 pontos, e a TOTVS recuou 1,71%, segundo a InfoMoney. O mercado local tratou o evento como confirmação, não como novidade.

Há uma bomba-relógio de orçamento armada para os próximos 18 meses. O suporte ao SAP ECC termina em 31 de dezembro de 2027, e apenas cerca de 30% da base brasileira migrou ou está em migração para o S/4HANA, segundo levantamento da consultoria Revna. São projetos de R$ 300 mil a R$ 5 milhões, de 12 a 24 meses, com pico de demanda em 2026 e escassez de consultores, conforme a Avanti IT Consult e a Tecflow. Bilhões de reais de capex estão comprometidos com ERP legado no exato momento em que surge a alternativa de redesenhar processos com agentes. Cada comitê que aprovar essa migração sem cláusula de IA assina o cheque errado da década.

O comprador corporativo brasileiro já validou a tecnologia em escala. Os bancos investirão R$ 50,4 bilhões em tecnologia em 2026, alta de 8%, segundo a pesquisa Febraban/Deloitte divulgada pela Forbes Brasil. O Itaú opera mais de 1.800 modelos de IA em produção e, com a Cognition, acelerou migrações de serviços em 6 vezes, segundo o NeoFeed e a TI Inside. A Lu do Magalu virou vendedora no WhatsApp com múltiplos agentes orquestrados e ultrapassou R$ 100 milhões em vendas em oito meses, com conversão 3 vezes superior aos canais digitais, conforme o Brazil Journal. A Vale opera mais de 45 soluções de IA na cadeia de mineração, dentro de US$ 685 milhões de PD&I em 2025, segundo o Correio de Minas. E o Banco do Brasil, com mais de 1.200 modelos catalogados, estrutura sua governança de IA com IBM e EY — retrato de como os incumbentes ainda ocupam os maiores contratos do país.

Na oferta, o contraste é didático. A CI&T cresceu 23,2% organicamente no primeiro trimestre de 2026 e elevou a projeção anual para US$ 555,8 a 575,3 milhões, com 20% das vendas novas em modelos de preço que capturam o ganho de produtividade, segundo comunicado via Business Wire. A Globant caiu mais de 53% em 2026, com projeção de crescimento de 0,2% a 2,2%. Mesmo setor, destinos opostos. A diferença é vender resultado versus vender hora.

Os laboratórios chegaram fisicamente. A Anthropic prepara escritório próprio em São Paulo para 2026, com foco corporativo desde o primeiro dia, segundo a Exame — e o Brasil já é o terceiro maior mercado do Claude, atrás de EUA e Índia. A OpenAI abriu em São Paulo o primeiro escritório da América Latina — o Brasil é também o terceiro maior mercado do ChatGPT, com 50 milhões de usuários mensais, conforme a CNN Brasil. Com a Ode nascendo global e “Claude-first”, a chegada do modelo forward-deployed ao Brasil é questão de quando, não de se.

A assimetria que me interessa está no funil de capital. O IDC projeta US$ 3,4 bilhões de investimento em IA no Brasil em 2026, alta de 30%, puxada por agentes, segundo o Mobile Time — dentro de um mercado de TI que cresceu 18,5% em 2025, para US$ 67,8 bilhões. Mas, das dez maiores rodadas de venture capital brasileiras de 2025, a minoria foi de empresas AI-first, conforme o Startups.com.br. Demanda validada, capital mal direcionado, incumbentes distraídos com a própria sobrevivência: é o vácuo onde nascem as “Odes brasileiras” — consultorias nativas de IA, agentes verticais que dominam tributo e legislação em português, modelos soberanos como o Sabiá-4 da Maritaca e o Soberano 1 do projeto SoberanIA operando sob a LGPD. Até o gargalo de talento muda de sinal: o país forma cerca de 53 mil profissionais de TI por ano para uma demanda de 159 mil, segundo a Brasscom — e o formato de poucos engenheiros de elite com agentes é a arbitragem natural de quem não tem exército para contratar.

O que eu defendo: quatro decisões para o executivo brasileiro

Minha convicção: o líder brasileiro tem de 12 a 24 meses para se reposicionar antes que a nova estrutura se cristalize. Quatro decisões práticas: renegociar contratos de software com cláusulas de IA, testar consultoria AI-first em paralelo, montar capacidade interna forward-deployed e medir presença nas respostas das IAs.

Primeira: renegocie contratos de software com cláusulas de IA. Todo contrato por assento que vence entre 2026 e 2028 deve voltar à mesa com três perguntas: o que acontece com o preço quando agentes reduzirem os usuários humanos? Que direitos de integração com modelos de IA o contrato garante? Que parte do valor pode ser indexada a resultado? Quem assina renovação de cinco anos por assento em 2026 compra o ativo que o mercado inteiro está vendendo. A migração SAP merece o mesmo filtro: migrar o núcleo regulatório e questionar, módulo a módulo, o que pode virar agente.

Segunda: teste consultoria AI-first em paralelo à tradicional — e meça custo por resultado, não por hora. Antes do próximo programa de transformação de 18 meses, rode um piloto de 90 dias com uma firma nativa de IA ou um squad interno equipado com modelos de fronteira, atacando o mesmo problema. A régua existe. O estudo da Organization Science indica o ganho esperado; o incidente da Deloitte na Austrália define o controle de qualidade a exigir. Se o piloto entregar em semanas o que a proposta tradicional promete em trimestres, você encontrou seu novo preço de referência.

Terceira: construa capacidade interna forward-deployed. Itaú, Magalu e Vale não esperaram fornecedor: montaram times pequenos, com autoridade para mexer no processo, colados no problema de negócio. O ativo escasso não é a licença. É gente que transforma modelo em sistema rodando — e ela pode ser sua.

Quarta: meça a presença da sua empresa nas respostas das IAs. É a frente de que trato todos os dias na Brasil GEO, e a mais negligenciada das quatro. Com o Brasil como terceiro maior mercado do Claude e do ChatGPT, uma parcela crescente das decisões de compra começa numa resposta gerada por IA. Se a sua marca e os seus dados não aparecem quando a IA responde sobre a sua categoria, você está fora de uma prateleira que não se compra com mídia — conquista-se com estrutura, fontes verificáveis e autoridade citável. O trade-off é real: esse investimento compete com a mídia paga do trimestre. Eu o priorizaria. A prateleira das IAs se consolida mais rápido que o leilão de anúncios.

O próximo passo

O calendário ajuda. A IBM divulga os resultados completos em 22 de julho; a SAP, em 23 de julho. As datas dirão se o pregão foi exagero ou subestimativa — a direção estrutural não depende delas. Quatro ações executáveis nesta semana:

  • Liste os cinco maiores contratos de software e consultoria da empresa, com valor anual e data de renovação.
  • Para cada um, responda por escrito: o que deste contrato uma equipe pequena com agentes de IA entregaria melhor, mais rápido ou mais barato?
  • Onde a resposta incomodar, defina um piloto AI-first de 90 dias para o terceiro trimestre, com métrica de custo por resultado.
  • Pergunte a três assistentes de IA quem lidera a sua categoria no Brasil — e registre se a sua empresa aparece na resposta.

A semana de 14 de julho de 2026 entrará na história como o momento em que o mercado parou de discutir se a IA transforma o software enterprise e passou a discutir quem sobrevive à transformação. A IBM falhou em antecipar a repriorização do capex — palavras do próprio CEO. O executivo brasileiro, avisado em tempo real e com os laboratórios abrindo escritório em São Paulo, não terá a mesma desculpa.

Referências

  1. Anthropic, Blackstone and Hellman & Friedman Introduce Ode with Anthropic, an Enterprise AI Services Firm — Business Wire
  2. Anthropic, Blackstone bet the next trillion-dollar AI business is implementation, not just models — TechCrunch
  3. Anthropic takes shot at consulting industry in joint venture with Wall Street giants — Fortune
  4. OpenAI launches The Deployment Company — OpenAI
  5. IBM warns second-quarter earnings fell short of expectations — CNBC
  6. “We Faltered”: IBM Plunges Most Since at Least 1968 on Miss — Bloomberg
  7. Ação da IBM desaba 25% e tem pior sessão da história após dados; “falhamos”, diz CEO — InfoMoney
  8. Enterprise LLM spend reaches new highs (relatório Menlo Ventures) — Yahoo Finance
  9. Accenture Shares Plunged 50% This Year — The Motley Fool
  10. Accenture plans on exiting staff who can’t be reskilled on AI — CNBC
  11. McKinsey headcount down more than 10% — Fortune
  12. McKinsey now has 60,000 people, but 20,000 of them are AI agents — OfficeChai
  13. Deloitte to refund Australian government after AI hallucinations in report — Fortune
  14. Big Four cut graduate jobs as AI reshapes entry-level work — BM Magazine
  15. Navigating the Jagged Technological Frontier (estudo com 758 consultores da BCG) — Organization Science
  16. Consulting on the Cusp of Disruption — Harvard Business Review
  17. Quem tem medo da IA? Queda da TOTVS pode ser oportunidade, dizem Safra e Itaú BBA — Seu Dinheiro
  18. Bancos investirão R$ 50,4 bilhões em tecnologia em 2026 (Pesquisa Febraban/Deloitte) — Forbes Brasil
  19. A aposta do Magalu na AI está convertendo 3x mais — Brazil Journal
  20. Anthropic mira operação própria no Brasil e escolhe São Paulo — Exame
Alexandre Caramaschi

Alexandre Caramaschi

Alexandre Caramaschi é CEO da Brasil GEO e Co-founder da AI Brasil, com mais de 18 anos de experiência em vendas, marketing e transformação digital.

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