O mercado esqueceu a história da IA?

Um artigo publicado no LinkedIn questiona a narrativa de que a inteligência artificial surgiu com os modelos de linguagem generativa. O texto destaca que tecnologias de IA já eram amplamente utilizadas em áreas como detecção de fraude, recomendação, crédito e analytics muito antes da popularização dos LLMs. A publicação também critica o excesso de hype no mercado, os problemas de governança, integração e qualidade de dados, além da falta de experiência prática de parte dos profissionais que discutem IA atualmente.

Cezar TaurionEscrito por Cezar Taurion
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Ilustração dividida em dois cenários sobre inteligência artificial. À esquerda, um ambiente escuro e abandonado com placas escritas “History of AI”, “Machine Learning”, “Fraud Detection”, “Predictive Analytics” e “Recommendation Systems”, representando tecnologias tradicionais de IA esquecidas. À direita, um cenário futurista e iluminado em neon mostra uma multidão correndo em direção a um grande palco com a frase “Gen AI Revolution”, além de termos como “Autonomous Agents” e “Synthetic Employees”, simbolizando o hype atual em torno da inteligência artificial generativa.

Texto critica o hype em torno da inteligência artificial generativa e relembra décadas de aplicação prática de IA em sistemas de crédito, fraude, recomendação e analytics.

É irritante a forma como parte do mercado passou a falar sobre IA nos últimos dois anos. Muita gente age como se inteligência artificial tivesse surgido em 2022, diretamente de uma interface elegante com caixa de texto e botão de “send”.

De repente, pessoas que nunca participaram de um projeto real de machine learning passaram a reescrever toda a história da computação como se tudo antes dos LLMs fosse irrelevante, primitivo ou “não era IA de verdade”.

Spam filtering? Não conta. Sistemas de recomendação? “Só estatística”. Detecção de fraude? “Automação tradicional”. Modelos preditivos? “Legacy”.

Os mesmos executivos que desprezam décadas de pesquisa aplicada são os primeiros a chamar de “revolucionário” um workflow de agente autônomo que inventa dados, quebra processos e produz respostas impossíveis de auditar.

Existe uma ignorância histórica enorme nisso tudo. Empresas vêm tentando aplicar sistemas inteligentes em problemas reais há décadas. E essas décadas produziram aprendizados extremamente importantes como dados ruins destroem modelos, contexto operacional importa, usuários confiam demais em respostas confiantes, integração é muito mais difícil que a demo, governança sempre chega atrasada, e valor de negócio nunca vem “automaticamente” da tecnologia.

Só que parte do mercado decidiu ignorar tudo isso porque agora a IA finalmente virou espetáculo. E talvez esse seja o verdadeiro diferencial dos LLMs: não inteligência, mas visibilidade.

Antes, IA ficava escondida em sistemas de crédito, logística, pricing, busca, risco, recomendação ou analytics. Agora ela escreve textos, gera imagens e conversa fluentemente. Isso criou a ilusão de que estamos diante de algo totalmente desconectado do passado.

Não, não estamos! Os mesmos problemas continuam existindo. Talvez até piorados. Continuamos dependentes de dados de qualidade. Continuamos sofrendo com integração. Continuamos tendo dificuldade de medir valor real. Continuamos lidando com erros silenciosos. Continuamos enfrentando problemas de governança. Continuamos confundindo demos impressionantes com maturidade operacional.

A diferença é que agora tudo vem embalado numa narrativa futurista e messiânica.

Observo muitas empresas repetindo exatamente os mesmos erros de ondas anteriores de tecnologia, mas acreditando sinceramente que desta vez “é diferente”. Toda geração tecnológica parece desenvolver amnésia corporativa seletiva.

E sinceramente, desconfio bastante de qualquer discussão sobre IA feita por pessoas que nunca precisaram colocar modelos em produção, lidar com dados ruins, integrar sistemas legados ou responder por decisões automatizadas no mundo real.

Porque no mundo real as coisas não acontecem por mágica. Mas a realidade obviamente gera menos hype do que prometer “funcionários sintéticos” no LinkedIn.

Cezar Taurion

Cezar Taurion

Cézar Taurion é referência em TI no Brasil desde fins da década de 70. Sócio e líder de operação da Kick Ventures, organização criada para conectar startups com o mercado a partir da busca de investidores-anjo e parcerias de inovação corporativa. Foi, por 12 anos, Diretor de Novas Tecnologias Aplicadas e Chief Evangelist da IBM Brasil.

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