É irritante a forma como parte do mercado passou a falar sobre IA nos últimos dois anos. Muita gente age como se inteligência artificial tivesse surgido em 2022, diretamente de uma interface elegante com caixa de texto e botão de “send”.
De repente, pessoas que nunca participaram de um projeto real de machine learning passaram a reescrever toda a história da computação como se tudo antes dos LLMs fosse irrelevante, primitivo ou “não era IA de verdade”.
Spam filtering? Não conta. Sistemas de recomendação? “Só estatística”. Detecção de fraude? “Automação tradicional”. Modelos preditivos? “Legacy”.
Os mesmos executivos que desprezam décadas de pesquisa aplicada são os primeiros a chamar de “revolucionário” um workflow de agente autônomo que inventa dados, quebra processos e produz respostas impossíveis de auditar.
Existe uma ignorância histórica enorme nisso tudo. Empresas vêm tentando aplicar sistemas inteligentes em problemas reais há décadas. E essas décadas produziram aprendizados extremamente importantes como dados ruins destroem modelos, contexto operacional importa, usuários confiam demais em respostas confiantes, integração é muito mais difícil que a demo, governança sempre chega atrasada, e valor de negócio nunca vem “automaticamente” da tecnologia.
Só que parte do mercado decidiu ignorar tudo isso porque agora a IA finalmente virou espetáculo. E talvez esse seja o verdadeiro diferencial dos LLMs: não inteligência, mas visibilidade.
Antes, IA ficava escondida em sistemas de crédito, logística, pricing, busca, risco, recomendação ou analytics. Agora ela escreve textos, gera imagens e conversa fluentemente. Isso criou a ilusão de que estamos diante de algo totalmente desconectado do passado.
Não, não estamos! Os mesmos problemas continuam existindo. Talvez até piorados. Continuamos dependentes de dados de qualidade. Continuamos sofrendo com integração. Continuamos tendo dificuldade de medir valor real. Continuamos lidando com erros silenciosos. Continuamos enfrentando problemas de governança. Continuamos confundindo demos impressionantes com maturidade operacional.
A diferença é que agora tudo vem embalado numa narrativa futurista e messiânica.
Observo muitas empresas repetindo exatamente os mesmos erros de ondas anteriores de tecnologia, mas acreditando sinceramente que desta vez “é diferente”. Toda geração tecnológica parece desenvolver amnésia corporativa seletiva.
E sinceramente, desconfio bastante de qualquer discussão sobre IA feita por pessoas que nunca precisaram colocar modelos em produção, lidar com dados ruins, integrar sistemas legados ou responder por decisões automatizadas no mundo real.
Porque no mundo real as coisas não acontecem por mágica. Mas a realidade obviamente gera menos hype do que prometer “funcionários sintéticos” no LinkedIn.









